Caminho de Cora Coralina – De Corumbá de Goiás à Cidade de Goiás

Sem pontos de parada para descanso e sem descansar entre as paradas. O Caminho de Cora, embora com uma ótima altimetria – a maior parte dos trechos plano ou de pouca elevação – é extremamente desafiante devido às condições climáticas. Não me recordo de ter me aventurado em algum lugar onde sofresse tanto com forte calor e clima tão seco. Meu rendimento caía de acordo com a incidência solar. Quanto mais o sol brilhava, mais eu sofria para manter o ritmo de caminhada.

Saíamos cedo, mas não antes de amanhecer. Durante as primeiras quatro horas, ainda fresco e com mais sombras, acelerávamos o passo porque sabíamos que a partir das 10h30 o forte calor chegava e sem cerimônias. Dali adiante, me sentia arrastando correntes no cerrado. Eu que transpiro muito comecei a me incomodar com o não suar, uma agonia. Exceto pelos primeiros trechos, dificilmente se tem acesso à água pelo Caminho. Então, carregar pelo menos 2L de água na mochila é uma questão de sobrevivência. Sombra? Algo raro e os bancos para descanso dos caminhantes e ciclistas eram tão bem posicionados, que a maioria ficava justamente onde batia o sol. No início, achava engraçado, mas no decorrer dos dias fui ficando irritada com o despreparo e/ou falta de inteligência de quem o fez. Colocaram esses bancos durante à noite?

Mais do que necessário reavaliarem isso e, claro, uma sugestão é posicionarem os bancos de preferência em km definidos , por exemplo, a cada 5km, junto com as placas referentes aos trechos dos poemas de Cora. A maior parte das placas estão junto aos bancos, mas o km é incerto. Tentei encontrar um padrão pela distância, mas não seguiu nenhuma lógica.

Embora em alguns sites deem a sugestão da melhor época para se fazer, isso vai depender de cada um. Época chuvosa ou seca? Se voltasse ao tempo, com certeza optaria pelo mês de abril ou maio, período seco, porém não tão seco como julho. Segundo os moradores, agosto e setembro ainda são piores (as queimadas recentes comprovaram isso). Por uma questão de agenda, só tinha disponibilidade para julho e, mesmo com noites amenas e um início da manhã delicioso para caminhar, como dito acima, o calor após às 11h era desagradável.

A vantagem desse clima seco foi conseguir lavar as roupas praticamente todos os dias no fim da tarde e estarem limpas e prontas para uso no dia seguinte. A poeira vermelha penetra no tecido e principalmente nas meias de um jeito, que se não lavasse diariamente, ao final teria que joga-las fora.

Um erro de estratégia durante a minha caminhada foi fazer descansos curtos ou quase nenhum. Para um, dois ou até 5 dias, vai tudo bem, dá para aguentar, mas encarar 300km somente com pausas curtas foi elevando o nível de estresse do corpo ao máximo. A partir de um determinado momento, conseguia andar 10km sem sentir dor no quadril, os demais, que eram em torno de 17 ou 18km, foram sendo feitos com algumas lágrimas correndo. Mas, porque eu não mudei a minha estratégia durante, já que estava incomodando tanto? Porque eu não estava sozinha… e não queria atrapalhar o caminho de ninguém.

Carreguei uma mochila de 60L, porque é a única que eu tenho. Mas, pela quantidade de itens que levei, a de 45L me atendia. Poucas roupas e leves (no final do relato, dou a sugestão do que levar). O peso maior ficava mesmo por conta da água, duas garrafas de 1L, e a comida, referente ao lanche do dia. Calculava estar carregando em torno de 6Kg.

Em relação às hospedagens, segui as sugestões do site oficial. A maioria dos lugares são bem simples, mas os anfitriões são muito hospitaleiros e a comida caseira deliciosa. Comento sobre cada hospedagem em seus respectivos trechos. Um hábito que adquiri quando fiz o Caminho de Caravaggio, mantive também nesse: a cada noite anterior à pernoite seguinte, avisava aos próximos anfitriões que estava a caminho e com horário de previsão de chegada. Excesso de preocupação? Talvez, mas nunca se sabe o que vem pela frente, então em caso de imprevisto e demora, tem alguém próximo para ajudar.

Ponto de partida:

Goiânia x Corumbá de Goiás

Há poucas opções de transporte ligando essas duas cidades. Somente segundas, quartas e sextas às 19h, chegando às 21h, ou para quem prefere chegar mais cedo, há coletivo até Anápolis e de Anápolis para Corumbá (três vezes ao dia: 10h, 13h e 16h). Saindo de Brasília, há melhores opções de horários.

Fechamos com um motorista no privado para fazer esse transfer. Saiu ao custo de 560,00 (quando não se tem opção, é a opção). Cheguei em Goiânia no dia 22/07 pela manhã, por volta das 12h seguíamos em direção a Corumbá de Goiás e em 2h30min (pausamos para comer) estávamos lá.  

A primeira hospedagem foi no Recanto da Serrinha. A pousada não oferece opção de janta e nem café da manhã, importante se atentar a isso e se preparar para o início do trecho. Sinceramente, café da manhã é o mínimo a oferecer aos caminhantes / ciclistas.

Trecho 1: Corumbá de Goiás x Salto Corumbá – 10,2km

O primeiro dia é sempre mais confuso para se organizar na arrumação da mochila, depois tudo entra no ritmo. Embora tivéssemos planejado sair cedo, porque ainda teríamos que encontrar uma padaria para comer, nos enrolamos e só iniciamos a jornada às 7h30. Como andaríamos pouco nesse dia, sem preocupação com o pequeno atraso.

Embora o Trecho 1 contabilize 14,5km, andamos menos porque combinamos com o Carlos, da Pousada Rancho Cocal, de nos buscar no fim do caminho de terra e início do asfalto. Evitamos ao máximo fazer as partes de rodovias caminhando, por segurança. Quem já andou ou pedalou por elas sabe que em alguns trechos nem possui acostamento e eu acho bem complicado ficar “brigando” com os carros e caminhões. No trecho de terra não há nenhum nível de dificuldade, então é só caminhar!

Luz, câmera e ação!

Do asfalto até o Salto Corumbá, são 4km. A entrada é paga e funciona como um esquema de clube. Um dia bem proveitoso (me iludi achando que os próximos dias seriam fáceis assim), onde pudemos andar por trilhas, tomar banho de cachoeira e simplesmente relaxar. Era dia de semana e, mesmo sendo período de férias escolares, estava bem tranquilo no número de pessoas. Ao final da tarde, seguimos para a pousada e fechamos o dia assistindo um lindo pôr do sol do Rancho.

Cachoeira da Gruta – Salto Corumbá

Cachoeira do Salto – espetacular!

Tardezinha na Pousada Rancho Cocal

E esse pôr do sol?

Trecho 2: Cocalzinho x Pico dos Pirineus – 6km

O trecho 1 e 2 se embolam e é difícil entender pelo mapa, pois a Pousada Rancho Cocal não fica no final do trecho 1 e início do 2, mas sim entre o trecho 2. Na verdade, isso acontece por todo o Caminho. A marcação do início / fim dos trechos não corresponde às hospedagens e gera uma certa confusão no entendimento e planejamento de quanto km serão feitos por dia.

Do Salto Corumbá até o Rancho Cocal fizemos de carro, como foi dito acima. Do Rancho até o Pico dos Pirineus, que corresponde a parte do trecho 2 (em torno de 6km), fizemos no dia seguinte, junto com o trecho 3.

Por conta do tempo e horário, alguns passam direto pela guarita e não sobem o Pico. Foi uma ótima indicação do Carlos sair bem cedo para curtir o visual de lá, é lindo demais. Só tem que ficar atento para não se distrair e prolongar o tempo ali, pois ainda tem muito chão pela frente até chegar em Pirenópolis. 

Mimosa

Ainda cedo, dava para ver a lua

Pico dos Pirineus

Visual do Pico dos Pirineus

O trecho 3: Pico dos Pirineus x Pirenópolis – 32,5km

Em relação à estrutura e ponto de água para abastecimento é o melhor trecho. Onde havia uma bica, eu molhava a camisa para resfriar o corpo. Estou acostumada com o calor, ou achava que estava, mas a partir das 11h começa a ficar desconfortável o clima tão seco e quente.

Atravessamos o Parque sem dificuldades no trajeto em si, mas, na verdade, era nosso primeiro dia à prova da bola de fogo (o sol). Da guarita até o mirante, caminha-se por uma estrada de terra com pouca elevação e bem sinalizada. Não tem como errar. Uma pausa no mirante para apreciar Pirenópolis e a partir dali, pega-se um acesso que sai da estrada principal e entra numa trilha, uma das poucas que se faz por todo o caminho. Ao cruzar um trecho de água, ali quis ficar. Definitivamente eu sou da água e onde puder me banhar, irei. Gelada e bem contrastante com aquele calorão. 

A vista para Pirenópolis

Uma piscina para chamar de minha!

A meu ver faltava pouco para chegarmos e uma expectativa enorme por comer (comida pê efe) e descansar aumentou. Mas, estávamos próximos mesmo é da Pousada Refúgio da Serra, bem no fim do Parque, e passagem obrigatória dos andarilhos e ciclistas. Nós, que ficamos hospedados na cidade, ainda tínhamos alguns km pela frente.

A dica: passar mais um dia em Pirenópolis curtindo o que a cidade oferece em termos de estrutura e bons restaurantes, além de ser um descanso providencial para encarar os muitos km que ainda se tem pela frente. Nós andamos 32km nesse dia e o seguinte seria tão longo quanto esse. Não fizemos isso e claro que essas longas caminhadas mais o forte calor impactaram diretamente no corpo e mente, ao final do Caminho.

Trecho 4: Pirenópolis x Fazenda Caiçara – 25km

Saindo do asfalto para o caminho de terra

Não consegui identificar ao certo onde termina o trecho 3 e inicia o 4. Comecei a marcar o GPS a partir do asfalto saindo de Pirenópolis e conta-se 3km até entrar no acesso do caminho de terra. Não há ponto de abastecimento, a não ser um bar ao lado do Rio das Pedras, no km 16. Já estava desfalecendo, queria comer e beber algo que não fosse água. Chega um momento onde só a coca-cola resolve (e eu nem bebo refrigerante no meu dia a dia). Sentei no bar, tirei a bota, molhei a camisa na pia do banheiro, bebi a minha coca e olhei para a placa de aviso em frente ao bar: 7km até à Fazenda Caiçara. Faltava pouco, mas faltava muito. O meu erro foi acreditar na placa e seguimos adiante sem ficar muito tempo ali. Quando bateu 7km, meu psicológico ficou abalado, me sentia esgotada com o calor (segundo o Garmin, pegamos o pico de 38ºc) e sem sinal da Fazenda. Na verdade, faltavam ainda mais 2km e eu fui contando cada metro restante, sem curtir mais nada.

Meu Brasil brasileiro!

Me concentrei no registro do momento e esqueci o nome do bar

No trecho oficial são 30km a serem percorridos, mas a Fazenda Caiçara fica antes da Serra de Caxambu. Ainda bem! Aproveite para descansar e pegar a Serra ao amanhecer, além de assistir um lindo nascer do sol de lá, faz um friozinho maravilhoso para caminhar. 

Conversando com os anfitriões da Fazenda a respeito das pessoas que fazem o trecho da Serra no fim da tarde / noite, ouso a dizer que é pedir para passar perrengue. Há trechos bem estreitos e um vacilo, principalmente de ciclistas, pode se machucar feio. Além disso, por não ser um caminho aberto, com certeza ao escurecer, a probabilidade de encontrar alguns bichos nem um pouco amistosos aumenta.

Trecho 5: Fazenda Caiçara x Radiolândia – 25,7km

Adorei ter feito a Serra de Caxambu logo cedo e curtir um pouco mais da paisagem, que nem sempre será tão bonita como essa em alguns trechos. Adoro caminhos de trilha e a minha energia estava abastecida. Embora suba um pouco no início, depois é só descida no controle da pisada e mantendo os joelhos firmes. No fim da Serra, vale uma parada na casa da D. Cleuza, viúva do famoso Sr. Quinzinho. Bebemos uma água, batemos um papo, assinamos o caderno de visita e ela carimbou o nosso passaporte. Fazer o Caminho sem “a troca” com os locais, não é a mesma coisa.

Um lindo amanhecer da Serra de Caxambu

A descida é bem acentuada

D. Cleuza carimbando o passaporte

Nesses momentos sempre me pego refletindo sobre a noção de tempo. Eu, que vivo no caos do centro urbano, estou sempre atrasada, sempre na correria, sempre reclamando que preciso de mais horas para dar conta das minhas múltiplas tarefas diárias, me vejo de repente não importando nem um pouco com a hora e nem com o que fazer. Ali, isso não faz a menor diferença, você acorda com as galinhas, toma café e sai rumo ao desconhecido.

Deixando a Serra de Caxambu para trás

As pousadas, na maior parte das vezes, são na verdade o bed&breakfast na casa dos anfitriões. Todos são muito solícitos e gentis, mas a minha empatia com a Cira, da Pousada Jardim das Flores, é de outra vida. Afinidade de imediato. Muita conversa e um carinhoso convite para curtirmos a festa julina na casa de sua irmã (ao lado da pousada). Eu, que amo uma festa junina/julina, não tinha ido a nenhuma nesse ano, então não hesitei em dizer sim. Ainda arrisquei dançar quadrilha (sinal que a panturrilha e o quadril ainda estavam sob controle).

Pensamos em ir à Fazenda Babilônia, mas chegamos por volta das 14h e não quisemos correr para tentar chegar no último horário de visita, às 15h.

Trecho 6 – Radiolândia x São Francisco de Goiás – 27,1km

O dia em que mais fizemos paradas foi o que me senti melhor, mesmo sendo um trecho tão longo quanto o anterior. Meu humor agradece. Gosto de aventura, mas não gosto de sentir dor. Volto a repetir, o maior desafio desse Caminho é administrar as paradas para descanso, se hidratar e se proteger do sol.

Os dias são longos e o tempo conta de forma diferente. O sol está ali, sempre atrás de você. Fazer o Caminho no sentido Corumbá de Goiás x Cidade de Goiás é favorável, por conta da posição do sol, ao contrário significa encara-lo brilhando de frente o tempo todo. Nem pensar!

km 100. Oi Deus, na escuta?

Saindo de Radiolândia, anda-se em torno de 2km no asfalto para depois entrar no acesso de terra, até a Estância Colher de Pau. Um dia longo como os demais, mas sem nenhum desconforto muscular. O que não gostei foi da hospedagem. Longe de estar em busca de algo luxuoso em meio a lugares tão simples, mas o mínimo que se espera é conforto após tantas horas caminhando debaixo de um sol forte. O Sr. Onilavir é bastante atencioso e a comida é muito saborosa, mas o quarto é ruim e o banheiro é péssimo. Pelo preço que nos cobrou (R$160 p/ pessoa), achei muito caro.

Mas, felizmente, antes de finalizar esse meu relato, vi no instagram do Caminho de Cora que a Estância havia fechado temporariamente para reformas. Fiquei muito feliz em saber que estavam fazendo melhorias para atender os futuros andarilhos e ciclistas.

Chegamos em um sábado à tarde em São Francisco, mas parecia domingo, porque tudo estava fechado. A opção foi tomar uma cerveja para se refrescar do calor que fazia.

O tempo

Trecho 7 – São Francisco de Goiás x Jaraguá – 26km

Ao ver o mapa, acreditava ser necessário subir a Serra de Jaraguá para chegar em Jaraguá, e já estava sofrendo de véspera por ter que andar 38,5km. Foi um certo alívio quando o Sr. Onilavir explicou que a havia diferentes maneiras de fazer a subida da Serra, seja no mesmo dia, a pé ou de carro, ou até mesmo no dia seguinte, como muitos fazem, para assistir ao amanhecer. As hospedagens indicadas ficam bem fora do fim desse trecho, então se fôssemos para fazer tudo à risca, contaria bem mais que essa distância oficial.

Não sabendo ao certo como desenrolaria esse dia, Sr. Onilavir nos levou de carro até o acesso da estrada de terra, ou seja, no km 6. O asfalto desse trecho não possui acostamento e é super perigoso. Rotas alternativas precisam sem pensadas!

Amanhecendo na Estância Colher de Pau

De onde iniciamos o trecho 7

Mesmo economizando 6km de asfalto e mais a subida da Serra de Jaraguá, que fomos de mototáxi, ainda considero o pior trecho de todo o Caminho. Come-se poeira o tempo inteiro, devido ao alto fluxo de carros e, mesmo sendo dia de domingo, o vem e vai de veículos era absurdo. Não sei quantos banhos foram necessários para tirar a poeira entranhada na pele, narinas, ouvidos e cabelo. Me senti uma humana empanada. Poucas opções para conseguir parar e descansar, visto que não havia praticamente sombra nesse trecho. Nem sombra e nem água. Nesse dia eu me perguntei que férias eram essas?

A Serra de Jaraguá no horizonte

Uma das minhas fotos preferidas!

Além de Pirenópolis, a minha dica é ficar mais um dia em Jaraguá: 1. Para descanso, afinal corresponde à metade do caminho. 2. Jaraguá é uma cidade com mais estrutura e com certeza alguns pontos interessantes de visitação. 3. Opção de assistir ao amanhecer da Serra. Optamos pelo pôr do sol, já que estávamos com a nossa programação e agenda toda definida. 

Nos hospedamos no Quintal de Roça, que fica distante do fim do trecho 7. Vale a conversa com a anfitriã Lucimar para buscar de carro no ponto combinado. Depois de um dia exaustivo e pouco prazeroso, não cogitava em nenhuma hipótese subir a Serra a pé – são 4km íngremes até a rampa de salto – e a Lucimar conseguiu duas mototáxis para nos levar. E foi assim que eu fiz a minha estreia numa mototáxi!

O pôr do sol da rampa de salto

Terminamos a nossa noite num agradável bate papo durante a janta com Lucimar e família, pessoas muito queridas. A hospedagem é simples, mas atende perfeitamente às necessidades. Um carinho enorme pro pessoal que torce pelo Mengão!

Trecho 8: Jaraguá x Alvelândia – 20km

No dia seguinte voltamos de carro para a bifurcação onde separa o caminho de Jaraguá e Vila Aparecida e desse ponto começamos o nosso trecho 8. Já que havíamos passado por ali no dia anterior, não fazia sentido voltar um bom trecho andando. Era hora de poupar as pernas.

Esse foi o primeiro dia em que encontramos outras pessoas fazendo o Caminho, três ciclistas. Comparado com o dia anterior, uma caminhada muito leve e fácil. Fizemos a nossa primeira e única parada em Vila Aparecida. Era uma manhã de segunda-feira, mas podia ser um domingo. Ninguém. Encontramos o bar aberto, o que foi ótimo para tomar aquela coca-cola. Cafeína + açúcar ingerida de forma mais rápida. Uma pausa para descanso na sombra e estava tudo ótimo.

Um trecho sem atrativos e sem traumas. Chegamos em Alvelândia e o nosso ponto de hospedagem foi na Pousada Morais. Na verdade, está mais para airbnb do que pousada, pois ninguém mora na casa e ficamos com ela toda disponível. A casa é confortável e comida preparada pela família, que mora bem próxima, é uma delícia. Descansamos bastante e com direito a acompanhamento dos jogos olímpicos. Não há nada a se fazer nesse povoado.

Trecho 9: Alvelândia x Itaguari – 19km

De Alvelândia até Palestina são quase 5km e funciona praticamente como os dois povoados anteriores: uma igreja, uma pracinha, poucas casas e um bar/mercearia. Encontramos o bar aberto e aproveitamos para carimbar o nosso passaporte. Nada além disso, então seguimos adiante até cruzar uma rodovia movimentada por caminhões, e assim continuamos por uma estrada de terra.

Um trecho também fácil e sem inclinação, chegamos no meio do dia em Itaguari. A cidade, bem menor que Jaraguá, mas nada comparado aos povoados por qual passamos. Há comércio como farmácia, lojas e restaurantes. Ficamos hospedados no Auto Posto, local simples, mas com cama confortável e um bom banheiro. O preço mais em conta de todas as hospedagens (R$ 80 p/ pessoa), e incluso o café da manhã. 

Trecho 10: Itaguari x São Benedito – 26km

O cenário muda um pouco, pois não há mais gado como antes e a agricultura vai ganhando um espaço maior pelo caminho. As corujas finalmente apareceram, já estava ficando frustrada por não as ver de perto (só porque eu as acho lindas). Curioso que por todo o caminho não encontramos animais perigosos, não que eu lamente por isso, mas nem uma cobra. Faziam dias de tanto calor que nem as cobras quiseram saber de sol. Além do gado, a variedade ficou por conta das aves: tucanos, maritacas, araras, pica-pau e alguns outros que não consegui identificar.    

Embora longo, esse trecho é fácil e sem elevação. Pegamos parte do caminho na sombra, o que para mim se tornou um dia muito prazeroso. Chegamos no Pouso Vitória no início da tarde e ainda deu tempo de comer aquele prato feito para peão em um restaurante de beira de estrada. Elizene e família são pessoas acolhedoras e a casa deles é uma ótima opção para descanso.

Trecho 11 e 12: São Benedito x Calcilândia x Pousada Caminho de Cora – 28km

Elizene ofereceu nos levar até o acesso para estrada de terra e aceitamos. Volto a repetir, os trechos no asfalto são bem perigosos e nessa rodovia o fluxo de caminhão é alto e com péssimo acostamento. Tão ruim quanto o caminho para Jaraguá, era dia de comer poeira vermelha novamente, pois na parte de terra também havia muito movimento de carro e caminhão e sem nenhuma sombra ou lugar para parar. Não andamos no asfalto e não paramos no de terra, com isso chegamos bem cedo em Calcilândia, por volta das 11h.

Calcilândia não possui qualquer atrativo, é praticamente uma rua, e o fato de ainda ser cedo, nos motivou a antecipar a nossa chegada em Goiás Velho. O plano inicial era ficar na Pousada da Daniela (Cowboy), mas fizemos somente uma pausa para comer e hidratar na mercearia dos mesmos donos. Entramos em contato com a Pousada Caminho de Cora para antecipar a nossa hospedagem, já que estávamos a 12km de distância. Uma decisão acertada.

O trecho 12 foi onde finalmente eu consegui ver tantas corujas e de muito perto. Ganhei o meu dia! A primeira parte do trecho 12 é no asfalto, cerca de 2,5km. Após, pega-se um acesso para o caminho de terra sem movimentação de carros e caminhões. Há partes desse trecho que carros nem passam. A Pousada Caminho de Cora é a mais estruturada das que ficamos. Para quem tem mais tempo, vale mais uma diária para curtir tudo que ela oferece. 

O detalhe é o acostamento, ou a falta dele.

Ela olhava para mim. Eu olhava para ela.

Pousada Caminho de Cora x Goiás Velho – 24,8km

Da saída da pousada até atravessar o córrego, passagem obrigatória do caminho, são 200m de distância. Vá de chinelo e depois calcem as botas. É uma trabalheira danada se preparar toda para logo ali na frente tira-la e segundos depois ter que calçar novamente.

Atravessando o córrego

Último dia, último trecho, mas apesar das dores fortes no quadril e desconforto na panturrilha direita, que parecia estar na iminência de câimbra, foi uma caminhada a passos rápidos. Passamos pelas ruínas de Ouro Fino, que é interessante, mas ao analisar de uma forma geral o ponto turístico para visitação, a estrutura é mal feita e acabada, inclusive com pedras soltas (não estou falando das ruínas). O pessoal que instalou os bancos para apreciar as ruínas devem ser os mesmos que instalaram os bancos pelos trechos: todos posicionados no sol. Além disso, mesmo sendo uma obra recente (inauguração datada de 2023), já está mal conservada devido ao mato alto.

As ruínas de Ouro Fino

Saímos de Ouro Fino e seguimos em direção a Ferreiro. Não há nada em Ferreiro, a não ser uma pequena igreja que está sendo reformada (não falarei de política, mas me atentei aos milhões destinados à reforma de uma igreja no meio do nada – está lá escrito para os poucos que passam lerem).

A igreja e seus milhões

Precisava de um descanso, botar as pernas para cima e comer algo. Passamos pelos tapumes e “invadimos” a obra. Só tinha um pedreiro em seu momento siesta. Resolvemos fazer o mesmo.

De Ferreiro até Goiás Velho faltava muito pouco, menos de 7km, só não esperava ter que andar no asfalto no trecho final até a entrada da cidade. Da igreja até a rodovia, foram 4km e mais 2,7km se espremendo no acostamento devido aos veículos em alta velocidade. Recomendo caminhar no sentido contrário aos carros, para assim ver o que talvez os motoristas não consigam (principalmente nas curvas). Ainda é necessário atravessar a rodovia, desesperador tanto para caminhante quanto para ciclista.

A última placa

Passado o estresse final na rodovia, era só alegria. Foram 300km em 12 dias, e nem todos sendo feitos com entusiasmo. Mas, para qualquer objetivo que me proponho a fazer, levo comigo o pensamento de evitar alguma contusão, afinal sou uma simples mortal. No dia seguinte estaria voltando para casa e um dia a mais já de retorno ao trabalho.

A montanha-russa de sentimentos durante o Caminho já era algo esperado, mentira de quem contar que é tudo maravilhoso, pois não é. O calor em excesso, o clima seco, o pouco descanso, a vontade de dormir até mais tarde, as dores musculares, tudo isso somatiza. Mas, ao mesmo tempo há compensações, seja através da paisagem ou de uma coruja blogueira olhando diretamente na minha câmera. Assim como pelas pessoas que conhecemos e os momentos que passamos em reflexão sobre si próprio. Cada vez que me aventuro em algo assim, tenho certeza que há sempre uma mudança interior, e para melhor.    

Bizu do que levar:

  • Mochila de trekking – 45L
  • Bastão de caminhada

Roupas

  • 1 bermuda de lycra
  • 1 short
  • 3 camisas dryfit UV – manga comprida
  • 2 camisas dryfit UV – manga curta
  • 2 calças compridas para caminhar
  • 1 short + camiseta (para dormir)
  • 1 biquíni
  • 4 calcinhas
  • 4 meias
  • 3 tops
  • 1 chapéu
  • 1 balaclava
  • Óculos de Sol
  • Bota
  • Chinelo
  • Toalha (de microfibra para acampar)

Utensílios

  • Carregador sem fio de baterias (para celular/Go Pro)
  • Carregador com fio
  • Go Pro
  • 2 Refis de água 1L
  • Saco plástico para isolar a roupa suja
  • Lanterna de cabeça
  • Álcool gel
  • Protetor solar
  • Lenço umedecido
  • Shampoo / condicionador em barra
  • Sabonete
  • desodorante
  • Escova de dente
  • Pasta de dente
  • Remédio de uso pessoal. Sugestão: Advil / Novalgina / Floratil / esparadrapo / gaze / soro / Polaramine comprimido e pomada / Nebacetin / Bepantol / vaselina
  • Agulha e linha de costura

Hospedagens:

Trecho 1: Recanto da Serrinha, Corumbá de Goiás

Trecho 2: Pousada Rancho Cocal, Cocalzinho de Goiás

Trecho 3: Fiquei em casa de conhecidos, Pirenópolis

Trecho 4: Fazenda Caiçara, Caxambu

Trecho 5: Pousada Jardim das Flores, Radiolândia

Trecho 6: Estância Colher Pau, São Francisco de Goiás

Trecho 7: Pouso Quintal de Roça, Jaraguá

Trecho 8: Pousada Morais, Alvelândia

Trecho 9: Hotel Auto Posto, Itaguari

Trecho 10: Pouso Vitória, São Benedito

Trecho 12: Pousada Caminho de Cora, entre Calcilândia e Ferreiro

Trecho 13: Pousada Chácara da Dinda, Cidade de Goiás

4 comentários em “Caminho de Cora Coralina – De Corumbá de Goiás à Cidade de Goiás

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  1. Joana, sua inspiração é motivadora, contar em detalhes do seu caminho físico é importante para os futuros viajantes.

    Mas com certeza, o seu lado íntimo e espiritual a partir destas ou outras trilhas, só te faz uma pessoa resiliente, motivadora e principalmente mais humana.

    continue o seu caminho, certamente outras emoções virão

    Com Poesia, Fê e determinação.

    PARABÉNS!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada pelas palavras!
      Sem a menor dúvida, voltei um pouquinho melhor do que fui e certamente mais forte, tanto no aspecto físico quanto que mental.

      Recebi uma dedicatória de um famoso viajante ciclista que disse: “às vezes é preciso ir longe para chegar perto de quem somos”. E é exatamente isso!

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    1. José, é interessante a meu ver, porque a gente se dá conta da pluralidade que é o nosso país. Mas, ao mesmo tempo, bem sofrido caminhar sob todo esse sol! Saí do cerrado com a certeza que caminhar ali não é pra qualquer um!

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