Pedra do Açu

Eu confesso que subestimei a subida à Pedra do Açu. Talvez porque tenha me baseado muito à Pedra do Sino, que já fiz, e embora seja uma trilha mais longa, é fácil de se fazer. A subida ao Açu é mais difícil e mais íngreme também.

Para comparação, subi os 12k do Sino em 4h. Já a Pedra do Açu, foram 7,5k em 5h. É só subida e trechos que literalmente o joelho vai no queixo. O dia estava excelente para trilha, sol, mas fresco, e período de seca. Sofri mesmo com o ataque das mutucas, elas não deram descanso o que tornaram as pausas no meio do caminho mais curtas do que o esperado.

Começamos a subida por volta das 9h30, depois do registro e identificação na entrada do Parque. A nossa chegada foi em torno das 14h30. Fomos os primeiros do bivaque a chegar, o que deu para escolher bem o local da acomodação. O banho não estava liberado devido ao período de seca. O jeito foi improvisar no lenço umedecido.

Ao longo da tarde as pessoas foram chegando. O que se tornou um tumulto grande porque havia um número de reservas dentro do abrigo maior que a sua capacidade. As pessoas ficaram chateadas, mas como essa vibe de trilheiros / montanhistas é boa, no final todo mundo se ajeitou. O silêncio se estabeleceu bem cedo; o cansaço e a reposição de energia para o dia seguinte falam mais alto.

Saímos do abrigo às 4:15. O objetivo era chegar ao Portais de Hércules para assistir o amanhecer. Nem todos que fazem a travessia Petrópolis x Teresópolis saem para esse acesso, porque desvia um pouco da rota.

Eu tive o meu “surto” de medo durante o caminho. Enxergava um palmo somente à frente e simplesmente a perna travou de medo durante uma descida. De fato descer uma pirambeira sem saber onde está indo me causou pânico. Após o breve choro, estava eu seguindo os passos do meu amigo.

Havia um outro grupo do abrigo que também estava disposto a ir ao Portais de Hércules. Eles saíram mais cedo que a gente e se perderam durante o caminho; acabamos ajudando a eles a chegar no acesso certo. Não é fácil lá em cima. Até os mais confiantes sentem dúvidas com a orientação, que fica por conta das setas e totens no meio do caminho.

Chegamos ao Portais bem na hora da Alvorada. Fiquei hipnotizada com o que os meus olhos puderam assistir. Não havia palavras, aquele silêncio absoluto e era hora de agradecer: por ter vencido o medo, por estar ali e por ser uma das pessoas que teve a oportunidade de assistir a um belíssimo espetáculo da natureza.

270718_portaisdehercules

270718(1)_portaisdehercules

Do Portais de Hércules é possível ver o Garrafão, Agulha do Diabo, São José, Santo Antônio, Cabeça de Peixe, Dedo de Deus, Dedo de Nossa Senhora e Escalavrado.

Voltamos para a Rota Petrópolis x Teresópolis e seguimos até o Morro da Luva (metade do caminho até a Pedra do Sino). De lá ficamos contemplando a Pedra do Garrafão e as mudanças climáticas. Uma incrível cerração se aproximou.

Não demos continuidade até a Pedra do Sino. O plano inicial era fazer o bate e volta: Açú-Sino-Açu. Mas, eu desisti dessa ousadia. A trilha é bastante puxada; até conseguiria fazer, mas exigiria além do meu limite físico e preferi respeitar. No meio da tarde estávamos de volta ao Abrigo do Açu. Foi tempo de almoçar, arrumar a mochila e descer.

Tivemos o privilégio de estar lá em cima no dia do eclipse lunar. Assistimos da trilha mais um espetáculo da natureza. Tinha certeza do quanto eu era sortuda!

Sobre a Trilha

O nível de dificuldade é alto. Exige condições físicas e não faça essa trilha sozinho. Também não recomendo fazer com alguém que não conheça, a não ser que fique somente no Açu (e mesmo assim tenho reticências a respeito, porque durante a descida do Açu pegamos uma grande cerração e não dava para ver nem as setas no chão). O clima da montanha é instável; nunca a subestime.

Para chegar ao Portais de Hércules e/ou seguir rumo à Pedra do Sino acho imprescindível estar com alguém que conheça o caminho, como foi o meu caso, ou esteja com um guia. No site do Parnaso há indicações de guias credenciados. Os acessos são difíceis e dá para se perder facilmente. Sem contar os precipícios; um caminho errado te leva a eles.

Dicas

Preocupe-se em levar um bom casaco e um bom saco de dormir que aguente temperaturas negativas. Tive a sorte de pegar uma madrugada sem vento, mesmo assim fazia muito frio. Dizem que quando há rajadas de vento, é de doer a alma.

Uma mochila de 60L aguenta bem. Eu carreguei 9Kg e não prejudicou a minha mobilidade.

Para a subida do Açu, 1,5l a 2l de água é o suficiente. Durante o caminho há trechos para abastecimento. Não esqueça o Clorin ou algo que purifique a água.

Não esqueça de levar um bastão de caminhada. Ajuda tanto na subida quanto na descida.

Não esqueça de levar lanternas. As de cabeça são a melhor opção para fazer a trilha e deixar as mãos livres.

O seu lixo é o seu lixo. Leve sacos plásticos. Não deixe nada na trilha ou no abrigo. A conservação do Parque é uma tarefa de todos nós.

Não conte com o banho no Abrigo do Açu. Leve lenços umedecidos.

Adoro repassar uma dica que aprendi com guias no Peru. Faça uma mistura de castanha, amendoim, uva passa e M&M. Distribua em 2 a 3 sacos. É uma carga calórica alta e de fácil absorção durante a caminhada.

Eu levei ovo cozido e batata doce para as refeições, já distribuídas em pequenas vasilhas. Possível de comer mesmo estando fria. Somente pão não me satisfaz por tanto tempo.

Sobre o acesso ao Parque:

O acesso é por Itaipava / Correias para chegar ao Parque. Eu fui seguindo as placas em Correias até que se tem acesso a uma estrada de terra. A partir daí, não se vê mais nenhuma informação. Como o meu amigo é local, não me preocupei com isso. Mas, sinceramente, é péssimo para quem não conhece. Eu recomendo chegar na entrada do Parque de táxi.

Sobre o Estacionamento:

Não há estacionamento na sede do Parque em Petrópolis, como acontece pelo acesso por Teresópolis. Ao redor há moradores que alugam o espaço em seus terrenos. Eu tive a infelicidade de parar o carro no último estacionamento antes da entrada do Parque, indicado por quem trabalha no parque . Não havia ninguém no local na hora para me receber. Parei meu carro e deixei para acertar o valor na volta. Cheguei de volta no dia seguinte, às 22h. Não tinha ninguém no estacionamento. Peguei o carro e fui apedrejada pelo dono da casa (nessa hora ele apareceu).

Chamei os seguranças do Parque e também tentei fazer a ocorrência na delegacia. Descobri o quanto estamos ferrados nisso. A polícia dificultou a minha ocorrência e eu fui embora no prejuízo.

Fica a dica: não estacione nas mediações do Parque. Não é um estacionamento e se fizerem algo com o seu carro, o problema é somente seu.

*Crédito pelas lindíssimas imagens do amigo e fotógrafo: Carlos Frederico Eboli

Um comentário em “Pedra do Açu

Adicione o seu

Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑