Huaraz

Cheguei à conclusão que tudo que é pouco falado me instiga e me desperta curiosidade. E foi assim que fui parar em Huaraz. Uma pequena cidade rodeada por montanhas, a 8 horas de ônibus de Lima e de uma beleza que os meus olhos me fizeram paralisar e até mesmo vibrar.

O 4 dias de trilha foram fechados aqui mesmo do Brasil com a agência Huaraz Treks. Rodolfo Oropeza foi o meu contato por e-mail e desde o início foi tão solícito comigo que em um determinado momento eu estava achando toda aquela ajuda muito suspeita. Do jeito que o mundo anda tão estranho, desconfiamos até da boa fé das pessoas!

O Rodolfo entendeu que eu queria fazer trilhas, mas ao mesmo tempo me preocupava com o físico e a falta de oxigênio; além disso ele sabia também que de Huaraz eu seguiria para Cusco e o caminho Inca. A sua sugestão foi fazer os dois primeiros dias de aclimatação e dependendo de como fossem, mudaríamos os planos, pois Laguna 69 e Churup são trilhas bem puxadas. Me senti muito confortável em saber que ele também estava preocupado com a minha saúde.

Ficou assim definido: 1º dia – laguna Wilcacocha / 2º dia – Glaciar Pastoruri / 3º dia – Laguna 69 / 4º dia – Laguna Churup

Comprei a passagem para Huaraz saindo de Lima pela empresa Cruz del Sur. O ônibus é muito bom, leito e também possui serviço de bordo. Paguei S/.128 pela ida e volta. Comparei com a viagem Rio/São Paulo e achei o preço ok.

Sentei no meu assento, me acomodei e eis que senta ao meu lado um mochileiro canadense perguntando se falava inglês. Começou aí uma história de amizade e parceria pelas trilhas de Huaraz! O Brian é daqueles que fala até com a parede e definitivamente falava mais do que eu. Eu, toda com um roteiro montado, e ele, sem falar uma palavra em espanhol e sequer com hospedagem reservada.

A previsão era chegarmos em Huaraz às 6h, mas atrasou devido ao mau tempo. Chegamos 7h30 na rodoviária e fomos direto para a pousada onde o Rodolfo me sugeriu e eu já havia reservado, El Jacal. Ótimo atendimento, serviço e conforto. Como o Brian estava perdido, foi comigo. Ele sugeriu dividirmos o quarto, já que eu estava num duplo, e assim foi. Mal sabe ele que a primeira noite eu o fiquei vigiando da minha cama, se caso ele viesse me atacar de madrugada (acho que assisto muito seriado policial).

Laguna Wilcacocha

Depois da acomodação e café da manhã, partimos para a Laguna Wilcacocha. Como era aclimatação, não seria uma trilha em grupo. Fomos eu, Brian e o guia Victor.

Essa trilha não tem muito nível de dificuldade, mas eu e o Brian sofremos com a falta de ar. Estávamos a 3850m e foram muitas as paradas para beber água e chá de coca. E sim, o chá de coca alivia, ajuda a respirar e não tem nada de ficar doidão. Passamos uma ótima tarde, com muito papo (durante o descanso)! Fechamos o dia assim. Quando voltamos para a cidade, fomos jantar e dormir. O dia seguinte tinha mais uma preparação!

Glaciar Pastoruri

O segundo dia também não seria de trilha longa e difícil, mas de maior altitude, 5000m. Não é brincadeira andar 200m e ter a sensação de ter caminhado 2km. Para completar, pegamos um frio de doer, com direito a neve. Por sinal, nem os locais estavam entendendo mais o tempo, seria a estação da seca e não parava de chover.

Nesse dia estávamos em grupo, porém não só da agência Huaraz Trek, mas de algumas outras para formar um grupo maior. E que grupo de pessoas estranhas. Mulheres com bota de salto, crianças… fiquei um tempo pensando: será que eu entrei no grupo errado? Quando chegamos lá, percebi que o povo sem noção eram eles e não eu.

No Glaciar, pode também alugar cavalos, mas eles só chegam até a primeira parte, o que é um trecho bem curto. Não acho que valha a pena. Vá andando mesmo…devagar, bebendo água e de preferência nas paradas sempre coma algo. É muita pressão e a sensação da cabeça pesar uns 50kg!

Na volta para o ônibus, optamos por seguir o caminho mais longo e alternativo. Ninguém quis ir a não ser eu e Brian. A paisagem é totalmente diferente e belíssima.

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Laguna 69

A saída para a Laguna 69 estava marcada para às 5h. A princípio até questionei do porquê irmos tão cedo, mas os guias sabem como o clima da montanha muda muito. Quanto mais cedo, melhor. Paramos por volta das 7h para tomar café da manhã na laguna Chinancocha. O lugar é lindíssimo, pena que o tempo não contribuiu. Estava chovendo e fazia muito frio. O jeito foi esquentar. Muito pão com nutella, banana, chá de coca e a folha de coca. Ali já pensava o seguinte: não estamos pra brincadeira. A reserva calórica é importantíssima e o tempo médio de subida era de mais ou menos 3 horas.

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Laguna Chinancocha

De lá seguimos para a base da laguna 69. Eu torcendo para a chuva parar, mas parecia que ela estava brincando comigo. O jeito foi relaxar e curtir com o tempo ruim mesmo. Comprei um tênis da timberland e meias de compressão para trilhas, da compressport, e posso dizer que foi a melhor aquisição que fiz. O caminho estava bem lameado e o tênis e a meia seguraram bem!

O início da trilha, todo o grupo estava junto e com disposição, mas conforme o tempo passava foi engraçado sentir o silêncio ao lado de todos nós. Eu particularmente pouco falava. Estava no meu momento, preocupada com a respiração, as paradas estratégicas e em beber água e o chá de coca. Obviamente essas pausas vinham junto com as fotos. O Bob Dylan uma vez disse que a felicidade não era chegar, mas sim a estrada. Eu fui nessa vibe de realmente curtir o caminho!

Obviamente, com o passar do tempo e a escassez de ar, a cabeça foi pesando, a perna foi sentindo e o ritmo das passadas reduzindo. Foi justamente quando comecei a me questionar o porquê de estar ali, o porquê de escolher fazer esse tipo de viagem e não ir para um resort.

Eram em torno de 3h30 de trilha, já estava bem cansada e aquela sensação de desmaio iminente. A paisagem já não tinha tanto verde, era bem mais cinzenta e as minhas paradas já aconteciam com muito maior frequência: 2min respirando me faziam bem, caminhava 100m e já estava péssima de novo. Eis que o pontinho azul começa a surgir no meio do cinza. Foi para mim o sentimento mais incrível e de difícil descrição. As lágrimas caíam do rosto e eu comecei a andar muito rápido. Já havia me esquecido da falta de ar, das dores e o desconforto. Eu tinha chegado lá!

Sempre há uma pessoa mais doida que você na viagem. O Brian é um desses. Apesar do frio absurdo, ele encarou e entrou na água! E eu só fotografei…

2015-05-17 12.14.05 Huaraz - laguna 69
Brian, meu amigo louco, entrou!

Ficamos um tempo lá, curtindo a paisagem, o frio, a superação do limite. Não sei ao certo, mas acho que passamos em torno de 2h lá. A volta não tinha jeito, todo um caminho atrás e, como dizem, para baixo todo santo ajuda. Porém, é geralmente nesse momento que nós nos distraímos e os acidentes acontecem. Eu tomei muito cuidado em descer, mantendo firme os joelhos e não forçando muito em jogar o peso do corpo para a frente por causa dos pés e da pressão do tênis nas unhas. Eu ainda tinha a trilha mais puxada no dia seguinte a fazer.

No caminho de volta, vi muita gente ainda tentando chegar na Laguna 69. Fiz muita questão de avisar a todos que encontrava para não desistirem porque eles estavam muito próximos e que o lugar é indescritível. Foi muito legal ver a expressão das pessoas de alívio e felicidade, buscando as últimas forças.

Não sei como ficou lá em cima a paisagem depois que saímos, mas pegamos muita chuva na volta e estava agradecida por termos sido o primeiro grupo a chegar. No momento que ficamos na laguna 69, não choveu e até mesmo abriu um sol. O tempo de retorno foi em torno de 1h30. O retorno a Huaraz, dentro do ônibus, foi de silêncio e, claro, dormindo. Esgotados!

Laguna Churup

Esse dia seria em tour privado. Saímos um pouco mais tarde, por volta das 7h30, numa picape 4×4. Fomos eu, Brian, o guia Leonardo e o motorista. Assim como a laguna 69, também saímos da cidade de Huaraz e demoramos cerca de 1 hora para chegar. Meu corpo estava dolorido dos dias anteriores e com a chuva que não parava de cair, posso dizer que a vontade era de nem me mexer.

A trilha no dia estava bem vazia, não sei se é assim sempre, por conta do nível de dificuldade. Na entrada do parque só havia um carro como o nosso parado e vimos um casal seguindo com o guia a nossa frente.

Em relação à laguna 69, a trilha da Churup possui menos acessos definidos. Ela é bem estreita, mais inclinada e sem ziguezagues. Além disso, na parte final é necessário se agarrar a uma corda presa na pedra para alcançar ao topo e assim chegar no lago. Confesso que nessa hora eu pensei em desistir. Olhava para baixo e só via o abismo, olhava para trás e me dava conta do caminho que já tinha feito. À nossa frente, estavam o casal de franceses que tiveram uma certa dificuldade em subir pelo rapel. Quando eles viram a minha reação com a altura (sim é um medo que tenho e preciso trabalhar) e o fato de ter ficado aqueles 5 minutos paralisada e sem saber o que fazer, ofereceram as cordas e o suporte para o rapel. Preferi confiar no meu guia quando me disse que as cordas presas na pedra davam mais estabilidade e o que eu tinha que me preocupar era com o movimento das pernas e a posição do meu corpo. Juro que nessa hora só me veio uma coisa à mente: focar no que eu precisava fazer e não pensar na altura e no medo.

Eu reclamei tanto do tempo, mas no final só tinha a agradecer. Pegamos chuva, vimos o arco-íris surgir, a névoa tomar conta do caminho,o sol abrir e mais chuva no final. Foi incrível o que essa trilha me proporcionou. As pessoas me perguntaram sobre o meu medo e, sim, ele esteve presente o tempo todo na trilha. E foi necessário lidar com ele para não perder oportunidades. O medo é uma forma de nos proteger, de ser cautelosa, mas, ao mesmo tempo,  precisa ser controlado para não se transformar em desespero.

A volta nós fizemos por um caminho diferente, porque realmente estava bem escorregadio descer pelo caminho íngreme molhado e com neve derretendo. Em alguns trechos da outra rota eu fiquei travada por não saber onde pisar e qualquer deslize poderia me machucar feio. Como eu falei acima sobre a trilha da laguna 69: é na hora da descida que as pessoas relaxam e sofrem acidentes.

Todo o percurso levou menos tempo se comparado à laguna 69, mas acredito que também pelo fato de estarmos com um guia privado. Eu fiquei encantada com a laguna Churup e o fato dela ser pouco visitada. Não encontramos mais ninguém nesse dia. Não tinha dúvidas que Huaraz havia entrado na lista dos 5 lugares mais top que eu visitei.

2015-05-18 13.55.58 Huaraz
A cidade de Huaraz

5 comentários em “Huaraz

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  1. Jojô, que relato arrepiante. Valeu mesmo! Quero ir a Huaraz, mas o máximo da dificuldade será Laguna 69 mesmo. Churup eu não conseguirei, rs. Vou começar a sair do sedentarismo para que em 2017 eu esteja com bom preparo. O mais difícil que fiz foi Vale do Paty, na Chapada Diamantina (4 dias). Acho que preciso comprar 2 bastões para as descidas (queria comprar uma bota, mas, pelo que li e leio, um tênis bom de trilha é suficiente). Como é esta meia de compressão? Se quiser dar uma olhadinha no meu roteiro, clique aqui (https://goo.gl/eTft7q). Valeu!

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    1. Oi André!!! Se vc está pensando em ir somente em 2017, prepare-se para a laguna Churup! É linda demais e a paisagem totalmente diferente em relação à laguna 69. Sem contar que nem todo mundo vai pra lá… O mais importante é fazer a aclimatização e ter um bom guia.
      Sobre o bastão, eu uso somente um, para não deixar as duas mãos dependentes. Há momentos em que o melhor é apoiar a mão mesmo para dar mais segurança. E o tênis, escolha aquele com travas, do tipo da timberland (custo benefício). E, como eu sempre falo…mais do que o tênis, é a meia que vai mais te ajudar. Elas secam rápido e protegem os seus pés de calos, bolhas. Segue o link da meia que eu comprei, ela é unissex. (http://www.compressport.com.br/pro-racing-socks-v2-meia-soquete-de-trilha.html)
      Abs!
      p.s. obrigada por me enviar o seu roteiro!

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      1. Salve, salve, Jojô!
        Repito aqui o comentário que deixei no meu roteiro, porque não sei se você vai ter acesso lá (não sei direito usar o googledocs). Valeu mesmo pelos comentários! Se eu tiver físico suficiente para fazer a Churup, eu farei. Mas prefiro não deixar isso como o objetivo de Huaraz. Tenho amigos em Lima para curtir também, sabe? Por isso reservei os fins de semana para lá, já que eles trabalham durante a semana. Sobre o “dia de luxo” entre Lima e Cusco é algo a se pensar, eu não tinha pensado nisso, valeu! Sobre dormir em Aguas Calientes, eu já tinha pensado: resta descobrir qual o último horário do trem de Ollantaytambo para lá. “Soroche pills”: anotei! Fantástico! E essa meia de compressão também, show de bola! Sobre o tênis, eu sempre quis ter uma bota, porque é mais seguro (o cano alto evita torções), mas acho que, pelo gasto que terei com outras coisas (capa de chuva, corta-vento, mochila maior etc), posso ficar com tênis de trilha que uso diariamente! Brigado pelo tempo e cuidado para me responder.

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      2. André, o seu comentário apareceu lá pra mim! Googledocs é o que há! rsrsrs O que você comentou sobre a mochila, eu comprei uma e indico a todos porque não vai te deixar na mão. É da Trilhas e Rumos (crampon 60). 60L = 12kg. Deu para aguentar bem e não parece, mas 12kg cabe muita coisa. Não carregue mais que isso! Quando falamos em muitos dias carregando, o corpo sofre. Leve o necessário e sabão líquido naqueles potes de shampoo. Quebra um galho! Eu viajei com ela com 11kg ao Peru. Já emprestei a amigos, já fui pra chapada com ela…custo-benefício. Mochila pra vida toda! No site da trilhas e rumos é mais caro do que nos market places que ela tem. Na época o melhor preço foi no site da Kanui. Bjos

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