Há pouco mais de um ano, exatamente no último post que escrevi aqui sobre a expedição aos Lençóis Maranhenses, conheci a Érica, uma querida pessoa e cheia de conversas enriquecedoras que me perguntou se eu já tinha ouvido falar do Caminho de Caravaggio. Não conhecia e sabia sobre ele, mas ficou ali a dica dela: você deveria fazer.
A informação ficou gravada em algum lugar no meu HD cerebral, mas como tenho uma rotina de trabalho bem frenética e característica de pessoas que vivem no caos urbano, não parei nem para pesquisar e me esqueci dessa história.
Após um primeiro semestre bem conturbado relacionado ao trabalho e vida pessoal, decidi que era hora de tirar férias, já que há mais de um ano não havia sequer tido ao menos uma semana de descanso. O Caminho de Caravaggio não foi a primeira e nem a segunda opção a ser cogitada, comprovando que realmente eu tinha me esquecido dessa dica preciosa.
Parece que o universo conspira a favor e contra também e as minhas primeiras opções de viagem não deram muito certo. Não conseguia guia para fazer uma travessia mais ousada pela Chapada dos Veadeiros; a outra viagem ficou muito cara e assim veio à mente o Caminho de Caravaggio. Fui pesquisar sobre no site oficial e ler blogs que tivessem relatos dessa aventura. Claro que também entrei em contato com a Érica pedindo mais detalhes sobre o Caminho e se era algum problema fazer sozinha e sem guia.
Pode ser que eu seja criticada negativamente ao afirmar que não tem sentido fazer com alguma agência, a não ser que o importante seja somente dizer que fez algo que na verdade não vivenciou de fato. E com o meu relato abaixo, sim eu posso dizer que não há problemas algum em ir sozinha, nem relacionado ao risco de se perder, pois o Caminho é todo sinalizado e não é uma trilha, e nem relacionado ao assunto perigo quanto a bichos ou até mesmo “bicho-homem”.
Segui fielmente o roteiro do site oficial e mesmo que em alguns pontos valha uma revisão, é um excelente guia. Um mês antes da viagem, entrei em contato com as pousadas e hospedarias para reservar a pernoite e é importante garantir com alguma antecedência para não haver risco de não ter vagas.
Saí do Rio de Janeiro no dia 11/09 com destino a Porto Alegre e ali no aeroporto Salgado Filho peguei o ônibus para Canela. A passagem já havia comprado no Clickbus, pela empresa Citral. O tempo de viagem é em torno de 3 horas.
Canela
Fazia um lindo dia de sol e calor em Canela, nem parecia que aquelas chuvas torrenciais da semana anterior que lia na internet eram do Sul. Como não conhecia a cidade, me programei para iniciar o Caminho somente no dia 13/09. Um pouco de luxo já sabendo que logo na frente seriam dias de muita caminhada e sem saber ao certo como eram as hospedagens.
Fiquei na Pousada Cammino della Serra, bem próximo ao centro de Informações Turísticas, onde é necessário pegar o passaporte do peregrino (o horário de funcionamento é de 10h às 16h). O quarto e café da manhã são bons e atenderam bem às minhas expectativas e, como eu disse que queria um pouco de luxo antes da caminhada, resolvi fazer a visitação com degustação à vinícola Jolimont. Só não sabia que ganharia uma taça nessa degustação e isso se tornou o maior dos desafios durante todo o Caminho de Caravaggio: leva-la até o destino final intacta.

Tudo preparado para começar o percurso, o tempo vira e chove absurdamente durante a madrugada. Acordei diversas vezes nessa noite assustada e cogitando em desistir ou até mesmo pegar um ônibus até Gramado e esperar a chuva passar. É tão boa a zona de conforto, não é mesmo? Mas, não fazia sentido burlar nada e não me propus estragar a minha própria história. Já tinha pego o carimbo na central do atendimento ao turista no dia anterior e junto a isso o mapa online e telefone de contato deles para caso de necessidade.
Trecho 1 – Santuário de Caravaggio de Canela até Supermercado Rissul – Gramado (14,3km) ; Trecho 2 – Supermercado Rissul – Gramado até Pousada Villa da Uva – Gramado (18,3km)
Resolvi emendar o trecho 1 e o 2 após ter lido em algum blog sobre essa possibilidade e também porque não via necessidade de andar “somente” 14km para ficar no centro de Gramado, cidade que já conhecia e, mesmo sendo muito bonita, não estava interessada no turismo da forma como ela se oferece. O fato de estar logo no início com energia e sem desgaste físico nos dá a possibilidade de fazer uma quilometragem maior. No final, foi uma decisão acertada.
O trecho 1 é praticamente plano e o caminho é todo pela cidade e estrada com alto fluxo de carros. Deu muito desânimo estar ali no frio, caminhando debaixo de tanta chuva e sem uma paisagem natural. Nunca vi tantas lojas, museus e construções megalômanas num percurso tão curto. Las Vegas do Brasil?

Fim do trecho 1 ao chegar no supermercado Rissul. A minha parada foi muito rápida, tempo de tomar uma água, usar o banheiro do mercado e carimbar o meu passaporte. No meu planejamento, se eu mantivesse esse ritmo no segundo trecho, chegaria na Pousada Villa da Uva no meio da tarde. Nesse primeiro dia, eu ainda não tinha me dado conta do padrão estressante em que me encontrava e mesmo de férias me monitorava pelo relógio, parecendo que disputava alguma prova de corrida.
Como foi dito acima, o Caminho é muito bem sinalizado e não há como se perder, mas fiquei confusa com informações logo depois da saída do Rissul e acho que vale uma revisão ou ponto de atenção. Embora tenha a sinalização das setas amarelas, logo acima tem uma placa dizendo Caminhos de Caravaggio Rota 2 para um lado, e Rota 4, 5 para outro. A seta amarela indica o caminho contrário à Rota 2.
Parei e fiquei olhando aquilo não entendendo o que era para fazer: não teria que ir para o trecho 2? A Rota 2 significa o quê? Segui a seta amarela sem certeza, mas como todo o trajeto há bastante sinalização de setas, mais à frente fiquei tranquila em relação a isso. Após uns 3km do trecho 2 o caminho começa a ficar agradável, mesmo que ainda continuasse sendo no asfalto e sem acostamento, o fluxo de carros era menor.

Poderia dizer que é o subúrbio de Gramado? Passava pelas casas fechadas e provavelmente isso se deve ao dia útil da semana, só não imaginava encontrar os pontos de parada também assim. De acordo com as informações do guia sobre os locais: cantina Linha Bela só funciona sobre reserva; Moinho Cavichion, vi uma placa dizendo que era um museu, não desviei da estrada para saber se estava funcionando e se oferecia produtos para comer e beber. Família Marcom também fechado.
Minhas botas impermeáveis não aguentaram o aguaceiro e os pés estavam molhados e gelados! Ainda pensava o quanto que faltava para chegar e calculei mais umas 2h se eu continuasse naquele ritmo. No km 9, encontrei um armazém aberto, da D. Isaura, e tremendo de frio pedi um café quente e algo para comer. Acho que se ela oferecesse cachaça eu tomaria também. Um pastel quentinho feito na hora enquanto me aquecia e muita conversa para esquentar o coração. Já estava preparada para as perguntas: “você veio sozinha, é de onde? ”
No início eu me preocupava com essa pergunta do estar sozinha. Normal para quem mora numa metrópole ter precauções e evitar dar informações como essa a desconhecidos. Para virar um pouco o foco da conversa perguntei sobre os peregrinos, por onde andavam, pois não havia encontrado nenhum até o momento e ela prontamente me respondeu: “só você passou por aqui hoje e talvez seja por causa dessa chuva. Desde a semana passada (quando caiu o forte temporal no Sul) o Caminho está vazio”. E eu ali procurando uma aventura.
Nem 15 minutos depois chega um peregrino e só pensei: tem mais um doido caminhando nesse temporal. Eu, Gabriel e D. Isaura ficamos de papo e assim como eu, ele também estava em busca de um local para comer e se abrigar da chuva. Tínhamos feito reserva na mesma Pousada do trecho 2 e km 0 do trecho 3: Colina de Pedra, que na verdade se chama agora Villa da Uva.

Depois de nos esquentarmos, comermos e nos abastecermos de chocolates, seguimos adiante. O Gabriel ainda parou no bar do Brezolla, um pouco mais à frente para carimbar e tomar uma cerveja. Eu não quis parar novamente pois queria muito tirar a minha bota molhada e tomar um banho quente.
Logo após o Brezolla começa a subida do trecho 2, mesmo não tendo comparação às subidas dos dias seguintes, após 25km eu só queria chegar. A chuva apertou e eu tentei acelerar o máximo. Não curti nada nesse dia e muitos questionamentos em ter escolhido tirar férias desse jeito foram me assombrando. Parecia um zumbido no ouvido.
Um pouco de drama nesse primeiro dia foi descobrir já na Pousada Villa da Uva que não oferecem a opção de janta, só a disponibilidade da cozinha. Eu só carregava o pequeno lanche do dia e nem tinha pensado nisso. “Como foi uma reserva feita pelo booking.com, não tinha como eles saberem quem é peregrino. O ideal é entrar em contato com a pousada”, disse o atendente. O detalhe é que ela fica longe de tudo e é a rota dos peregrinos, além de ser o ponto 0 do Trecho 3.

Errado somos nós (contém ironia) e ainda tínhamos um novo desafio que era conseguir comer e bem. Gabriel chegou um pouco depois e eu estava ali na recepção aguardando para dar as boas notícias. Tentamos pedir pelo whatsapp através dos contatos que a recepção nos passou de lanchonetes e somente uma disse que entregaria, pois era muito longe, e mesmo assim cobrando uma taxa de 50 reais. O hambúrguer custa 25,00 e a entrega 50,00. Difícil aceitar isso.
Partimos para o plano C, achar algum uber que nos levasse ao centro de Gramado, a 7km de distância. A recepção também nos passou uma lista de motoristas, já que pelo aplicativo só havia recusas, e apenas um aceitou ir nos buscar. Repusemos as energias com uma boa comida e vinho, e pegamos um táxi de volta.
Dica: se for para ficar na Pousada Villa da Uva, já saia do supermercado Rissul com a janta garantida ou tente negociar com antecedência a opção de ter comida congelada disponível.
Há outras opções de onde se hospedar no Trecho 2, antes do Km 0: Pousada Sartori e Hospedagem da Patricia Cavichion. De acordo com as conversas com outros peregrinos e locais mais adiante, seriam os melhores lugares a ficar no momento.
Trecho 3: Pousada Villa da Uva – Gramado até Pousada da D. Solange – Vila Oliva (20,8km)
A ignorância pode ser considerada também uma benção. Embora no site oficial mostre todas as altimetrias do percurso, eu olhei e achei bem razoável o desnível de subida ser de 717m, sem ter me atentado na informação abaixo que diz que o tempo médio é de 9h. Para completar, como nos blogs que li não relatavam nada em específico sobre os trechos, achei que fosse ser mais tranquilo que o primeiro dia devido a quilometragem menor. Esse povo caminhou mesmo?
Atenção a esse percurso pois achei o mais difícil deles e além disso sem nenhum local de parada para abastecimento e até mesmo residências para que pudesse pedir água, por exemplo. Prepare o que comer e beber porque é daqueles dias que nunca se chega ao final.
Muito por conta da chuva e do frio, eu e Gabriel paramos pouquíssimas vezes e mesmo assim de forma bem rápida para nos hidratarmos. Confesso que foi o dia que menos bebi água e comi. Falávamos pouco e eu andava rápido para manter o meu corpo aquecido, no final ele disse que só foi acompanhando o meu ritmo. A minha mente nesse dia estava um turbilhão e acho que muito devido a isso, caminhava sem querer parar. Ironia ser o dia mais difícil e aquele que mais rápido fizemos. Pensava em tudo e não pensava em nada e foi uma verdadeira meditação em movimento. Tenho poucas fotos ou registros mentais do trecho 3.



Chegamos em Vila Oliva acabados após 5h40 de caminhada. Logo na entrada da Vila há um mercado e pensei de imediato na necessidade de reposição calórica e energética com uma coca-cola, algo que não consumo no meu dia a dia. Meu corpo pedia por açúcar.

Após um tempo parados no banco da calçada sentindo aquele vento gelado atingir a alma, andamos mais 500m já de forma dolorida para chegar na Pousada da D. Solange. Fomos recebidos por ela e sua irmã Clair com calorosos abraços e um café quente para esquentar o corpo e o coração.

Na pousada há possibilidade de lavar as roupas e foi o que fizemos ao custo de R$10. Roupas limpas e secas era só o que eu precisava, além de um prato bem farto de comida. Foi ali que o Gabriel descobriu que o assunto fica sério pra mim quando se tem feijão, arroz, bife e ovos na mesa. Comida caseira e muito saborosa misturada com um bom bate-papo dos anfitriões.

De acordo com o Sr. Valnei, esposo da D. Solange, fomos rápidos demais nesse trecho e assim me dei conta que não fazia o menor sentido permanecer nesse ritmo acelerado. Era a minha despedida do ano velho e havia toda uma relação da caminhada veloz como reflexo desses pensamentos ainda mais acelerados. Um trecho bem difícil para um ano muito difícil. Eu realmente estava satisfeita que ele tenha se encerrado dessa forma.
Trecho 4: Pousada D. Solange – Vila Oliva até Seminário – Sta. Lúcia do Piaí (15,6km)
Madrugada de muito frio (3ºC) e enrolada nas cobertas como se fosse um casulo, difícil foi levantar da cama. As panturrilhas deram sinais de fadiga pela ousadia do dia anterior e muito calmamente tomamos café da manhã e curtimos o lindo dia de sol que se iniciava na frente da casa para nos esquentarmos. O nosso ritmo já passaria a ser outro desde que o Sr. Valnei informou que era um trecho bem tranquilo e mais curto. Não tivemos pressa em sair, eram quase 12h, e muito menos em andar rápido. Paramos tantas vezes para fotos e papos aleatórios. Um novo ano se iniciava: 41.

O trecho era com certeza mais suave, mas não teve moleza e xinguei algumas vezes o Sr. Valnei por isso (com todo o respeito e de forma brincalhona). O dia estava lindo, fazia frio e era um clima perfeito para caminhar. Me dei conta da quantidade de pedras do tipo cristais que havia no acostamento e fiquei brincando de pegar as que mais me chamavam atenção e segura-las por um tempo até sentir se elas passavam alguma vibração. Uma foi escolhida para voltar para casa comigo.


Conhecemos peregrinos que emendaram o trecho 4 e 5, pois dormir no Seminário é sair 4km da rota. Mesmo sendo um percurso mais tranquilo que o 3, não é tão fácil assim e o 5 também tem muita subida. Não recomendo pelo desgaste desnecessário e correndo o risco de gerar algum problema maior do que somente dores musculares. Além disso, dormir no Seminário foi uma das experiências mais fantásticas do Caminho.


Chegamos no fim da tarde após uma parada na pracinha em Sta. Lúcia para ir ao mercado, tomar aquela coca-cola e gatorade, comer chocolate e picolé. Sim, estava aumentando a minha lista de suprimentos pós caminhada e faltavam somente uns 500m para chegar no Seminário, mas parecia uma eternidade com mais uma subida. Quando entramos pelo portão, comecei a rir da imagem do casarão, pois me remeteu ao filme O Iluminado.


Fomos recebidos pela querida assistente e cozinheira D. Geralda. Após essa primeira recepção e acomodação nos quartos, pudemos curtir um pouco do pôr do sol na companhia de dois cachorros lindos que não me recordo o nome e que não me deixavam tirar fotos. Jantamos na companhia do Padre Adone e ouvindo as suas histórias.


Trecho 5: Seminário – Sta. Lúcia do Piaí até Hospedaria Bom Pastor – Nova Petrópolis (23,1km)
Tivemos o prazer de conhecer o Padre Mário e ouvir suas histórias de cavalgadas e missas crioulas durante o café da manhã, nos arrumamos e pegamos carona com o Padre Miro até o km 0 do trecho 5. Para quem pensa em não ficar lá para economizar na quilometragem, pois ao todo são oito a menos, existe a opção de pedir carona para a Adriana, que é responsável pela recepção dos peregrinos, para levar até o início do trecho 5. Digo mais uma vez que vale muito a pena se hospedar lá.

Eu não sabia disso quando fiz a reserva e achei providencial poupar energia, ainda mais que esse dia já iniciava com temperaturas mais altas. A altimetria desse trecho é maior do que a do 3, chega a 956m, mas também é um percurso de muita descida: 712m. A primeira metade é só descida e se engana quem pensa que descer é fácil, pois exige muito mais atenção e cuidado com os joelhos por ter muitas pedras soltas. Na descida, muito mais partes com sombras, já na subida, aquele sol do meio da tarde para cada um.
Logo no início do trecho fomos abordados pelo Sr. Guerino que passava de carro e disse que nos esperava em seu bar no km 2 do percurso, para carimbar o nosso passaporte. Ele gosta de conversar e conhecer pessoas então esteja preparado para o bate-papo e se possível tomar a graspa (cachaça de uva) ou umas doses dela. Como eu não tenho afinidade com bebida destilada, pedi ao Gabriel para beber por ele e por mim, enquanto lia as mensagens dos peregrinos que já haviam passado por ali e fazia o meu carimbo na parede do bar.

Após o bar do Sr. Guerino, não há mais ponto de consumo de comida e bebida. Estávamos com lanches, mas foi preciso encher nossas garrafas de água em dois momentos durante esse percurso: na casa da D. Solange, bem no fim da descida e próximo ao Rio Caí, onde é ponto de carimbo, e na casa da D. Maria (por volta do Km 15), depois de subir tudo e descobrir que ainda falta mais. Ao final e sob um forte sol, chegávamos à estrada, mais 2km planos pelo acostamento de uma rodovia bem movimentada.






*Dica importante: há um mercado 200m antes de chegar na Hospedaria Bom Pastor. Não podia faltar aquela listinha de suprimentos e mesmo com a temperatura mais alta incluí o vinho para a hora do jantar. Qual é a graça de fazer o caminho se for simplesmente chegar?
Trecho 6: Hospedaria Bom Pastor – Nova Petrópolis até Pousada da Chácara – Piá (19,3km)
Nos despedimos da D. Gleci, uma pessoa incrível e super atenciosa com os peregrinos, saímos da Bom Pastor e caminhamos ainda por uma pequena distância pela estrada movimentada até entrarmos numa de terra. A previsão era de muito calor nesse domingo e logo pela manhã já sentíamos que o sol não nos perdoaria. Para quem opta por fazer o Caminho no período do verão, é necessário sair bem mais cedo do que nós nos programávamos, por volta das 8h30. É ruim andar na chuva e frio, mas a meu ver é muito pior fazer sob um calor que me lembra o verão do Rio de Janeiro.

Logo no início percebi que o meu pé esquerdo incomodava e não sabia identificar o quê exatamente. Tentando me apoiar mais no bastão fui levando até a metade do caminho do jeito que dava. Já havíamos parado outras duas vezes, mas mesmo assim o calcanhar doía muito e já na terceira foi aquela parada emergencial para tirar a bota e colocar as pernas para cima. O meu estoque de advil estava no fim e se fizesse teste anti-doping seria barrada. Não encontrei farmácias nos trechos das estradas e o jeito foi desabastecer o estoque do amigo.



Não curti esse trecho, assim como o primeiro, porque tanto no início quanto que no final o percurso segue por rodovias movimentadas. Claro que o calor e a dor no calcanhar contribuíram para que eu comparasse ao trecho 1, que não possui nenhum atrativo natural. Andar por essas estradas me causa muito mais insegurança, ainda mais em momentos onde você vê carros fazendo ultrapassagem bem ao seu lado. Queria andar rápido, mas não conseguia.
O lado positivo foi ouvir muitas buzinas dos motoristas para a gente e inclusive ver pessoas parando o carro no acostamento para perguntar se precisávamos de bebida ou comida. Foi tão bacana sentir essa energia e perceber que muita gente sabia que aquele ali era um dos trechos da rota de peregrinação.
O momento drama parte 2 ficou por conta da Pousada da Chácara. O Gabriel reservou na Pousada dos Plátanos, assim como as peregrinas que encontramos na Bom Pastor. Eu havia reservado nessa outra, justamente onde é o km 0 do trecho 7. A dos Plátanos fica a 1,5km antes, ele parou e eu continuei. A mulherada avisou para eu ficar ali, mas como tinha reservado pelo booking.com, não queria pagar a taxa de cancelamento.
Eu já sabia que essa Pousada não oferecia janta, pois a D. Gleci tinha me avisado. Só acho curioso que os lugares onde não oferecem essa opção são justamente aqueles que estão no meio do nada. Cheguei no fim de tarde naquele calorzão e só pensando em banho e cama. Não havia ninguém na recepção e quem me atendeu foi o jardineiro que parecia estar em seu momento de folga, sem camisa e tomando algumas cervejas com os amigos.
De cara não gostei da situação, mas continuei com o check-in, até o momento em que perguntei sobre o horário do café da manhã e fui informada que a pousada não oferece o café e nenhum outro serviço de cozinha. Fiquei em choque e coitado dele que viu uma mulher fedida e furiosa na sua frente. Resolvi voltar para a Pousada dos Plátanos e de repente me apareceu o funcionário da recepção, com direito a burocracia para estornar os outros 50% restante de pagamento. Perdi o dinheiro do booking.com, mas estava tranquila retornando a um local que preza por um bom atendimento e serviço. A dica preciosa dessa caminhada é não se hospedar ali, pois segundo a “rádio-peregrino”, já teve algumas mudanças de dono e ser o km 0 do trecho 7 já não faz mais sentido. Por essa mesma rádio, falaram que o Caminho está para ser revisado, só não souberam dizer quando.

Trecho 7: Pousada da Chácara – Piá até Fazenda Vale Real – Vila Cristina (24,1km)
Nem Pousada da Chácara nem Fazenda Vale Real e a distância final nesse dia foi um pouco menor. Saímos da Pousada dos Plátanos por uma rua asfaltada com pouco fluxo de carros e logo depois do km 0 entramos numa estrada de terra. Fazia bem menos calor que o dia anterior e com bastante vento (sinal que a chuva voltaria). Esse trecho tinha bastante sombra o que tornou a nossa caminhada muito mais prazerosa.
Passavam alguns quilômetros e as dores no calcanhar intensificavam, ainda bem que esse trecho é só descida com boa parte plana, o que amenizou o meu desconforto. Eu demorei a entender que o não-revezamento de mão com o bastão (sou destra) estava jogando o meu peso para o lado esquerdo do corpo e como consequência disso o inchaço no pé e dor no calcanhar.




Paramos menos que os dias anteriores para descansar, hidratar e comer por conta do clima bom e altimetria baixa. Tem uma paisagem bem bonita do alto e pela última vez passaríamos pelo Rio Caí. Por todo esse percurso não há nenhum ponto de parada para consumo a não ser quase que no final, quando se chega na estrada, no restaurante Tenda das Águias.
D. Gleci disse que o pastel deles é famoso na “rádio-peregrino”. Claro que eu quis experimentar e é realmente maravilhoso, enorme e muito recheado. Bem atrás da Tenda das Águias fica a Pousada Recanto das Águias, administrada pelo Leonardo, pessoa muito querida e ótimo anfitrião. Eu parava por ali nesse dia enquanto que o Gabriel andaria mais 4km para chegar na Pousada da Famiglia Pezzi.

No site oficial não há a indicação do Recanto das Águias e quem me passou o contato foi a Daiane, quem administra a hospedagem da Famíglia Pezzi. Quando entrei em contato com ela, não havia mais disponibilidade de reserva, mas ela prontamente me passou o contato do Leo. A Daiane é muito simpática e solícita, inclusive me dando dicas do que levar no Caminho já que estava fazendo sozinha, como um simples apito.
Conheci mais duas pessoas maravilhosas nessa caminhada. Ao Leo, só elogios também. Além da casa ser linda e tão bem cuidada, é um ótimo cozinheiro. Jantamos e tomamos café da manhã juntos e o que não faltou foi conversa na mesa.
Trecho 8: Hotel Fazenda Vale Real – Vila Cristina até Capela Caravaggeto – Alto Feliz (15km)
Os ventos fortes eram o prenuncio que a chuva estava chegando, só não imaginava que seria um temporal por toda a madrugada. Saímos um pouco mais tarde devido à chuva forte no início da manhã e quando pareceu dar uma trégua, começamos. Tirando a parte em que precisamos atravessar a rodovia, esse trecho é praticamente todo por estrada de terra.
Pelo site oficial, não há nenhuma informação de pontos de parada e ficamos surpresos ao encontrar no Km 7 a Parada do Caminhante (não havia lido em nenhum blog também). Aproveitamos para nos abrigar da chuva que havia apertado novamente e tomar um café com os anfitriões Tânia e Sérgio, tão gentis e simpáticos que a conversa se estendeu por mais de uma hora.


Já havíamos percorrido quase a metade do trecho e era muito cedo para nos preocuparmos com a hora (quanta coisa mudou nesses dias de andança), foi bom que a água que caía amenizou. Claro que o importante é chegar, mas chegar com a certeza que todo o caminho foi muito bem aproveitado. Esse percurso em sua maior parte é no plano, mas se não tiver um pouquinho de subida no dia, não é Caravaggio!
E a partir do km 12 começamos a subir, nada que já não estivéssemos acostumados, mas os 9kg na mochila que carregava pareciam ter se tornado uma tonelada. O meu pé esquerdo ainda inchado, porém estava ciente que só resolveria isso quando não tivesse mais que andar por tanto tempo com esse peso nas costas. Sentia dores pelo corpo, em compensação a mente estava leve e limpa. Houve uma troca significativa do peso em que carregava mentalmente para o que carregava fisicamente. O mental com certeza dói muito mais.



Mesmo com chuva pudemos apreciar esse trecho 8 que, a meu ver, junto com o 9 são os mais bonitos e merecem ser contemplados. Chegamos na Capela Caravaggeto e descemos uns 300m para ir na casa da Nona Maria Anna Maggioni, onde tem wi-fi. No ponto da Cruz, o KM 0, não tem sinal de celular e é necessário sair do perímetro por alguns metros para entrar em contato com os transportes que levam para as hospedagens. Eu fiquei na Casa Canjerana, administrada pela Suzana, filha da Nona, já o Gabriel tinha reservado no hotel Di Capri, que fica localizado na cidade.



A Casa Canjerana é belíssima e fica bem mais próxima que o hotel Di Capri do Km 0. Foi uma experiência maravilhosa admirar a decoração, ver os livros na estante e curtir os LPs disponíveis para ouvir (não me lembrava a última vez que coloquei um LP para tocar), enquanto esperava a Suzana chegar do trabalho. Quem me buscou na casa da Nona foi o filho Felipe e estava muito curiosa em conhece-la, pois numa das prateleiras tinha encontrado um dos meus livros preferidos: As Brumas de Avalon.

Suzana chegou à noite e jantamos juntas. Empatia imediata, bate-papo na cozinha e claro que perguntei sobre o livro e contei da minha paixão pelas histórias do Rei Arthur e todo lado místico envolvendo Morgana e Merlin. Fazia todo sentido um livro daqueles numa casa daquelas. Se fosse para escolher um lugar para ficar por mais um dia, com certeza seria ali.


Trecho 9: Capela Caravaggeto – Alto Feliz até a Vinícola Colombo – São Roque (15,5km)
No dia seguinte após o café da manhã, Suzana me levou para conhecer a gruta próxima à Casa e contou um pouco sobre o fundador José Preto e o que o motivou a construí-la. Eu adoro ouvir e me envolver nessas histórias! Fizemos as nossas preces e fomos ao encontro do Gabriel, que me esperava na casa da Nona, onde marcamos o nosso ponto de encontro.


Nada contra o hotel Di Capri, mas se hospedar lá é sair totalmente da atmosfera que envolve o Caminho. Ir para a cidade e retornar no dia seguinte pelo mesmo trecho que será feito andando perde um pouco do sentido e graça. Gabriel sabia muito bem as subidas que teríamos que fazer enquanto eu estava inocente e curtindo aquele momento ainda de muita espiritualidade.
A primeira parte do percurso é bem tranquila e fomos curtindo o visual. Fazia muito calor e me dei conta que tivemos um revezamento por esses dias entre chuva, sol, frio e calor, nenhum pouco monótono e totalmente justificado o peso da mochila devido aos casacos que carreguei.


Com o calcanhar inchado e dolorido, mesmo nos trechos mais tranquilos tive que parar algumas vezes para ajustar a meia e bota. Por outro lado, não faltou motivação para continuar ao ler as mensagens em diversas placas espalhadas e perceber também aquele cuidado com os peregrinos ao colocarem torneiras de água potável por todo o trecho. Estava fugindo da graspa, mas recebemos ofertas de locais para tomar uma. Com o calor que fazia, se fosse cerveja não recusaria.


Os últimos 3km são de subida bem íngreme, uma tortura aliviada pela linda paisagem. Talvez pelo cansaço, muitos passem por esse trecho já não prestando atenção ao cenário. Vale a pausa porque falta muito pouco. Para Gabriel que já conhecia o caminho por conta do transporte, não havia expectativas em relação às subidas, teve sim spoiler e eu não sei se gostei de ficar sabendo.

Chegamos na Vinícola Colombo, na verdade quase chegamos, porque fomos seduzidos a parar no vizinho, o Sr. Roque, da Vinícola Slomp, para conhecer e experimentar a sua produção. Era o combustível que faltava com o estômago vazio para me sentir ainda mais leve. Depois dessa pequena degustação, fomos para a Colombo, onde o Sr. Antônio e sua esposa Rosane aguardavam nos receber. Linda casa e acomodação. Claro que também teve degustação por ali e definimos qual vinho tomaríamos mais tarde no jantar.



Nessa última noite tivemos a companhia de mais um peregrino, parecia bicho em extinção por aquela semana. Em todos esses dias, eu só encontrei o grupo das amigas do Sul em duas hospedagens (não vou considerar peregrinos quem pega van e está com as botas limpas), caminhando mesmo nós não vimos ninguém. Eu, Gabriel e Ibanez tivemos uma noite adorável e por um breve instante desejava dar uma pausa em tudo que estava acontecendo para não ter que acabar. Seria como aquele momento em que se ouve uma música tão boa e quando se dá conta que não aproveitou o suficiente, volta ao início, para canta-la com a intensidade que ela merece. Eu só queria voltar um pouquinho, não precisava ser tudo, para curtir ainda mais essa energia.
Trecho 10: Vinícola Colombo – São Roque até Santuário de Caravaggio – Farroupilha (22,5km)
Havia uma felicidade em saber que estava completando o Caminho e ao mesmo tempo uma tristeza em saber que estava completando o Caminho.
Saímos não muito cedo da Vinícola Colombo e sem conseguir nos despedir do Sr. Antônio que estava recebendo um grupo de turistas, e não peregrinos, que estavam ali para carimbar os seus passaportes. Mas, ele depois nos alcançou de carro para simplesmente dar tchau. Como não ficar feliz com toda essa atenção e carinho?
Ainda tivemos a abordagem de um motorista querendo saber de onde éramos. Claro que o sorriso cresceu quando cada um disse a sua cidade de origem, três pessoas de lugares distintos se encontrando ali e finalizando um projeto juntos. Depois dessa conversa na beira da estrada, entramos por um caminho de terra até chegarmos numa região bem pobre e malcuidada, pois havia lixo por todo o lado. Agrediu aos olhos ver essa imagem, se já estava sofrendo para terminar, ainda seria passando por um lixão?
Depois dessa parte, o trecho ainda piora pelo fato de ter que andar no acostamento de uma rodovia bem movimentada. E eu com medo, sentindo caminhões passarem bem próximos com todo aquele barulho de buzinas e o cheiro da poluição, acelerei o meu ritmo e esqueci completamente as dores no calcanhar, deixando Gabriel e Ibanez para trás. Não estava preparada para voltar ao caos urbano desse jeito. Ainda foi necessário atravessar a pista, mas pelo menos saímos dessa rota e entramos numa parte bem mais tranquila e quase sem fluxo de carros.
Claro que todo o esforço a mais me trazia algumas pontadas no calcanhar e dores fortes no pé. Estávamos num trecho muito melhor, porém o visual não era nada daquilo que vimos nos últimos dois dias. Paramos bastante e conversamos na devida proporção. Definitivamente, eu não queria chegar. Já havia aceitado isso internamente e fui enrolando nos meus passos. Não queria encerrar pensando que talvez onde o estado da minha mente se encontrava pudesse ser perdido.

De olho no mapa e altimetria, a última parte é de muita subida e esperava por algo bem ruim e exaustivo, mas foi mais suave do que imaginava. Se não tem subida, não é Caravaggio (já disse isso em algum momento) e com certeza essa não foi a mais difícil desses 200km! De longe avistamos o Santuário, faltava uma reta somente, e ao chegar fomos direto carimbar pela última vez o passaporte e retirar os nossos certificados. Foi gratificante o acolhimento final do Santuário ao nos receber. Tocamos o sino e teve registro!
A viagem só é boa de verdade quando você volta para casa no outro dia e quer mudar de vida!







Relação de Hospedagens que indico:
Pousada Camino della Serra , Canela
Trecho 3: Pousada Dona Solange, Vila Oliva – (54) 9999-5671
Trecho 4: Seminário N. Senhora da Divina Providência, Santa Lúcia do Piaí – (54) 3266-1052
Trecho 5: Hospedaria Bom Pastor , Nova Petrópolis – (54) 98401-4020
Trecho 6: Pousada dos Plátanos, Piá – (54) 98431-4051
Trecho 7: Pousada Recanto das Águias, São José do Caí – (54) 9142-3705 / Famíglia Pezzi , Vila Cristina – (54) 9979-5396 (*Não fiquei na Pezzi, mas sei que é muito boa também).
Trecho 8: Casa Canjerana, Alto Feliz – (54) 9714-8436
Trecho 9: Vinícola Colombo, São Roque – (54) 9978-2525
Trecho 10: Hotel Bem te vi, Farroupilha
Joanita sua viagem é encantadora. Muito bem explorada com tantas vivências. Minha querida vc poderia divulgar para a imprensa moderna. Vc tem muito a acrescentar em divulgar sobre reportagens ecoturismo.
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Pois é, a Joana também tem amiga sedentária. Sou quase convicta da minha inércia. Digo quase porque toda vez que leio suas histórias penso que é isso que preciso na vida. Ela me inspira, seu blog e suas viagens também.
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Janaína, você sabe que eu adoro os seus feedback e sempre fico na expectativa pela sua leitura. É muito gratificante o seu retorno e carinho.
Já vejo uma nova Janaína!! Ela está diferente e mais propensa a desbravar! 😉
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