Meia-volta a Ilha Grande – BISA 48K

“O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com o que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis. ”  Fernando Pessoa

E mais uma vez juntos. O quarteto formado para se desafiar na travessia do Leme ao Pontal estava em inquietude. Já havia se passado 2 anos do nosso desafio finalizado com sucesso, e a prática da natação em águas abertas se mantinha forte, talvez mais do que antes, principalmente em um ano 2020 horrível para todos nós, de pandemia e instabilidade político-econômica. Queríamos uma nova meta.

Em novembro de 2020, iniciamos a conversa com o Renato, organizador da BISA. Em um primeiro momento, pensamos em reservar a nossa janela de travessia para abril de 2021. De dezembro até abril, 5 meses de preparação, e o tempo suficiente para voltarmos ao ritmo de treino e estarmos prontos.

E o percurso? A dúvida seria fazer os 37k ou 48k na Ilha Grande. Decidimos que seriam os 48k simplesmente pela minha defesa em nadar no percurso mais ousado, onde o trajeto passa pela praia mais linda da Ilha, a meu ver, Lopes Mendes, e pelas reservas da Praia do Sul e Leste, área onde não é permitido ficar na praia, e eu só conhecia por mapa. Era um argumento forte e eles não fizeram objeção.

Da Praia da Aroeira até a Longa

Dávamos início ao nosso novo projeto juntos, porém nada foi linear. Túlio não daria certeza se conseguiria fazer essa travessia e deixou em aberto a opção de “ceder” a vaga para algum outro nadador. Eu prontamente avisei que isso não seria possível. “O nosso grupo é o nosso grupo. Se você não puder fazer, faremos nós 3 então. ”

Ainda em dezembro, eu descobri um problema de saúde e que me tirou da “casinha” por algum tempo. Não contei para eles e não deixei de treinar, mas não sabia ao certo se a travessia seria viável para mim. Dezembro passou e nós não acertamos a nossa reserva, o que dava a entender que a nossa travessia havia de ser postergada.

O ano maldito se foi ou era assim que todos nós pensávamos que seria. Uma simples virada de número e todos os males da pandemia se extinguiriam. Não foi bem assim, como todos nós sabemos. De toda forma, em janeiro de 2021 voltamos ao ponto: E a BISA, vai rolar? Paulo, o capitão do nosso time desde o Leme ao Pontal, entrou novamente em contato com o Renato. A possibilidade de ser em abril foi descartada, o prazo era curto e queríamos ao menos estar todos vacinados, já que o cenário ainda era muito nebuloso. Decidimos reservar a nossa janela para setembro, pensando na vacina, como também no período pós inverno, de menor instabilidade marítima. Com bastante antecedência, nos baseamos no período lunar, fato importante a ser considerado e que aprendemos no nosso primeiro revezamento, e definimos a lua minguante, que se iniciava no dia 28 de setembro. No dia 01 de fevereiro demos o 50% de sinal para a BISA.

Motivação e sonhos para o que estava por vir foi afogada numa tempestade aparentemente sem fim. Logo após o pagamento, recebo o resultado da minha biópsia e uma pequena lesão detectada no útero. Não sabia o que fazer e nem por onde começar. Foram alguns dias de tensão, reavaliação de resultados, mas tudo indicava que seria necessário fazer um pequeno procedimento cirúrgico. Briguei com Deus. A primeira de algumas brigas nesse ano, mesmo assim continuei treinando.

E setembro chegou. Aquele projeto tão distante estava a caminho de ser concretizado. Me sentia fortalecida, fisicamente e mentalmente. Uma verdadeira virginiana: disciplinada e racional. Meus três alicerces para a preparação foram a natação, na piscina (durante a semana) e no mar (final de semana); o funcional, para o fortalecimento muscular; e a yoga que, embora muitos consideram um alongamento, me ajudou a conduzir o controle emocional, que oscilava entre altos e baixos.

O 50% restante do pagamento à BISA havia sido feito no início do mês. De fato, estávamos em contagem regressiva. Comecei a acompanhar a previsão das marés para Ilha Grande, porém bem pouco familiarizada com as tais setinhas de direção do vento e o que seria favorável para a gente. Entendo que se eram boas as condições para o surf em Lopes Mendes, com certeza para a natação não era, e vice-versa.

A primavera entrou, estávamos em lua cheia e o mar subiu no Rio de Janeiro, com previsão de ressaca. Além disso, a temperatura da água caiu. Mesmo curtindo nadar em águas geladas, a preocupação era nadar à noite, somente de maiô, em um mar gelado. No meu último treino realizado no mar de Itaipu no fim de semana anterior, a água estava entre 18/19ºC. Alguns amigos me perguntaram depois porque não nadamos com a roupa de neoprene, mas como parte do regulamento, não é permitido. Travessia raiz, se é assim que posso definir.

Segundo os meus entendimentos de leitura da previsão, ou o nado seria no dia 28, ou não seria, pois havia uma mudança climática e impactaria diretamente na nossa janela de 7 dias. No domingo já tinha resolvido deixar a minha mala pronta. Estávamos entrando em trabalho de parto. Nesse mesmo dia à noite, a ligação do Renato para o Paulo e a convocação estava feita. Tínhamos que estar na marina do condomínio Portogalo às 20h de segunda-feira, dia 27. Não era o melhor mar, mas no nosso período de reserva, seria a melhor condição.

Fizemos a nossa reunião on-line logo após a chamada. Um misto de alegria com nervosismo e dividimos uma lista do que cada um levaria. Ao invés de cada um pensar na sua hidratação somente individual, definimos uma lista geral onde os suprimentos deveriam atender a todos do grupo.

E assim ficou, Túlio: coca-cola, água de coco, polenguinho, paçoca, molho à bolonhesa e vinagre (um ótimo remédio para aliviar queimaduras de água-viva, se necessário). Marlus: gelo, isotônicos, macarrão ao alho e óleo, mel e cerveja (para a comemoração). Paulo: Tâmaras, banana desidratada, massas pré-pronta e meclin (indicado para prevenção de náuseas e vômitos). Eu: ovos cozidos, massas pré-pronta, bananas, gel de hidratação, carbolift e cafeína em cápsula. Não havia água na nossa lista, porque a organização já disponibilizaria. Itens adicionais e individuais: toalha, casaco, meias, coberta, roupas extras. 

Em questão de mar aberto, sim, isso tudo precisa ser analisado e considerado para que estejamos ali para curtir. O descanso, a alimentação/hidratação, e a proteção ao corpo são pontos fundamentais para que o mais importante nesse momento não seja impactado: a natação no mar. A nossa equipe dá certo desde sempre porque o que mais desejamos é concluir o nosso objetivo. Não importa se será com menos ou mais tempo. Nós queríamos viver isso mais uma vez juntos.

Os simples mortais como nós ainda trabalharam na segunda-feira, dia 27. O combinado seria sairmos de Niterói às 17h30, para evitar a hora do rush na Avenida Brasil. Claro que surgem sempre imprevistos e um leve atraso ocorreu. Pelo waze, o caminho mais rápido seria pelo arco metropolitano, com previsão de chegada às 20h no Portogalo. Não perguntei aos demais sobre o que achavam de irmos por lá à noite. Pisei fundo no acelerador. 

Na marina, iniciava o nosso embarque e algumas conversas sobre as condições do mar, e o recado do Fábio, comandante do barco, de apressarmos o quanto antes a nossa largada, para passar pelo trecho da ponta dos Castelhanos antes da previsão de entrada do vento forte.

De lá até a Praia da Aroeira, de onde é a largada, levaríamos em torno de 1h30 para chegar. Durante esse trajeto, o Renato perguntou como estava definida a ordem de entrada. Para quem ainda não sabe, nessas travessias o revezamento é definido por hora, e não pela distância percorrida. Eu avisei que faríamos a mesma sequência do Leme ao Pontal: Túlio, Marlus, eu e Paulo, mas a expressão dele não foi das mais convincentes e em seguida perguntei se sugeria alguma mudança na ordem. O terceiro trecho seria justamente a ponta dos Castelhanos e por conta da ondulação que bate nas pedras e retorna ao mar, se transforma num liquidificar aquático. Por eu ser a mais leve, certamente teria que fazer muito mais força para nadar.

Nadar à noite e no breu, não é nenhum pouco confortável. Abrir o nado à noite, é bem pior. A explicação talvez esteja no conforto psicológico em ver que o primeiro a cair na água deu certo. Eu sendo a primeira, era o “boi de piranha”.

Pela regra, o nadador sai do barco e vai até a areia da praia, aguarda a buzina tocar e dá início à travessia. Entrei na água em direção à praia, éramos nós, eles no barco, eu na água, mais os latidos altos dos cachorros não tão distantes. Uma decisão rápida do Renato e Fábio de não precisar ficar na areia e eu já tinha entendido que algo tinha a ver com os cachorros, mas nem quis me aprofundar na história. Por volta das 23h20, iniciava as minhas braçadas.

O primeiro momento foi uma natação desencontrada. Eu estava cega com o foco da luz projetada em mim e ainda tentava encaixar a minha respiração com a braçada e pernada. Parei uma vez, quase bati no barco. Houve mudança na posição da luz, voltei a nadar e tive que parar novamente para um reajuste, porque a luz ainda refletia nos meus olhos. Depois da segunda arrumação, não havia mais o que reclamar, encontramos a posição certa da iluminação, na proa do catamarã, e a água numa temperatura incrivelmente confortável, em torno de 22ºC, àquela hora da noite. Mas, os demônios resolveram aparecer.

Aqueles incríveis programas da Discovery Chanel sobre tubarões não paravam de passar na minha mente. Não sei se vocês sabem, mas a hora da alimentação dos bichos é justamente à noite. E eu ali. Foi uma verdadeira briga psicológica e tudo de mais trágico que eu poderia pensar em acontecer passou pela cabeça. Deixei os pensamentos virem enquanto encaixava a minha respiração e o ritmo, e comecei a questionar se nadar à noite em Ilha Grande era tão tenebroso assim.

Passei alguns meses desse ano em um outro percurso bem mais escuro e sombrio: consultório e laboratório médico. Tive um primeiro diagnóstico de lesão no útero e que depois de alguns meses foi detectado que não era uma lesão, ou se era, sumiu. Foi um alívio o segundo resultado, mas serão mais 2 anos de acompanhamento semestral. Após o fechamento desse ciclo, mais uma surpresa e descubro um nódulo na hipófise e, de início ao tratamento, ao menos com um ano de duração. O medo de nadar à noite não poderia ser maior do que essas últimas notícias.  

A natação fluiu, escutava somente o barulho do meu corpo em movimento junto à água, e entreguei satisfeita a minha primeira hora. Era a vez do Marlus entrar, tocamos as mãos, seguindo o regulamento, e só tive tempo de dizer: “aproveite, a água está maravilhosa”. Subi no barco e comecei a minha etapa de alimentação e descanso. Às 3h20, estaria entrando novamente.

A disciplina e concentração são fundamentais para a finalização de um esporte de longa duração. Eu estipulei uma rotina: subia no barco, jogava água doce no corpo, trocava de roupa, me agasalhava, comia e dormia. Ao todo, foram 5 caídas minha na água (às 23h20, 3h20, 7h20, 11h20, 15h20) e do Marlus. Túlio e Paulo entraram 4 vezes. Finalizamos a travessia no tempo de 17h29min, um pouco acima do que eu imaginava, que eram de 16h (calculando uma média de 3k/h).

O resultado de tudo isso foi a certeza que passamos uma incrível travessia juntos. Nos preocupamos o tempo todo um com o outro. Paulo, o primeiro a marear, escutou um leve esporro de mãe (eu) e não perdeu mais tempo em tomar o remédio e ficar na parte de fora do catamarã, para sentir menos o balanço do barco. Ele precisou tomar o meclin (santo remedinho) duas vezes para se sentir 100%. Túlio e eu não esperamos para ver o que poderia acontecer, também tomamos o remédio no primeiro sinal de desconforto. Marlus ficou rindo da gente porque não enjoou.

A lua minguante estava marcante e amarelada no início da madrugada e o céu extremamente estrelado. A manhã se iniciou cinzenta e por algum momento achamos que viria chuva, mas o tempo abriu e se tornou um lindo dia de sol. A temperatura da água foi esfriando, o que ficou uma delícia para quem estava nadando sob aquele sol forte. Em um cenário que aparentemente não era o melhor, porém o menos pior, fomos agraciados pela mãe natureza. Estávamos felizes e é isso o que importa.

Na Marina do Portogalo, antes de embarcarmos
Túlio
Paulo
Marlus
Eu
A nossa chegada após 17h29min.

Fotos: Daniel Righetti

9 comentários em “Meia-volta a Ilha Grande – BISA 48K

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  1. Quero, em primeiríssimo lugar, lhe dar os parabéns por ter contado sua história e dos seus amigos do mar, com maestria. Sei o tanto que é difícil criar um mundo novo diante de tantos desafios. De uma pagina em branco surgiu um belo depoimento com criatividade e fatos pontuais. Parabéns mais uma vez a você e ao quarteto. Como sempre falo, vocês juntos são perfeitos. Sua escrita é encantadora.

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  2. Extremamente fabuloso! Esse quarteto está fazendo história. Muito, muito bom viver isso! Segue aqui meus agradecimentos ao Fábio (comandante) por toda navegação segura, ao Daniel pelos excelentes registros, ao Renato pelas orientações e a Fabiane pelo apoio do início ao fim do desafio.
    Confesso que foi complicado minha participação devido mudanças de horários no trabalho, mas absolutamente compensador todo esforço! A ficha caiu pra min, que conseguimos, no momento que nos abraçamos na praia em frente a Igrejinha (foto). Foi uma sensação indescritível! E confirmado pelos sorrisos de todos ali na embarcação!
    Meu “medo” são as mentes criativas, pois tudo indica que não parou por aqui nossos desafios!
    Adsumus!!!

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  3. Joana, impressionante sua capacidade de nos fazer participar de um momento tão fantástico como esse, através de uma narrativa rica de detalhes e emoções envolvidas.
    Parabéns por mais uma conquista em TIME, em EQUIPE, sem brios, mas com a certeza e a confiança na própria capacidade e na do próximo em todos os momentos.
    Vencedores das maiores barreiras, que são aquelas impostas por nós mesmos, demonstrando uma FORÇA INTERIOR magnifica.
    Ai está um verdadeiro QUARTETO FANTÁSTICO!!!

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    1. Obrigada pela mensagem Andrea. A ideia era justamente essa: tornar para o leitor o que foi sentido naquele dia! E que sirva de inspiração para tanta gente essa história, pois nada é linear, sempre haverá barreiras e dificuldades. Essa equipe está mais unida, isso é uma fato!

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  4. Joana….”por trás de um grande sucesso, há sempre uma grande equipe”. Equipe maravilhosa. Parabéns pela competência, empenho e dedicação de todos vocês.

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  5. No apanhado de conexões e afastamentos que vida proporciona, o inesperado é o elemento que não falta em qualquer história. Quando se conhece alguém, em qualquer momento da vida – em especial para os que acreditam na sensibilidade – há uma parcela de algo desconhecido que torna o encontro inesquecível. Tem quem explique com causas espirituais, destino, e até quem pense que é bobagem. Acredito na minha intuição. De longe sempre admirei a menina de olhar verdadeiro, gentil e pouco falante. Mesmo com a violência dos anos e sua velocidade, pela distancia das redes nos esbarramos. Jamais esqueci daquela moça. Hoje adulto, tenho a chance de conhecer um pouco quem é a Joana que marcou minha memória. Num looping do meu imaginário, descobri que a minha colega por duas vezes – de escola e profissão – é admirável. Por sua personalidade, por sua determinação e múltiplas capacidades. Cada um enfrenta seu próprio mar, da sua forma. Seu relato, Joana é a tradução das suas braçadas na vida, dão sentido a intuição de conhecer pessoas que nos desafiam a olhar para nós mesmos. Sua narrativa é um convite a descobrir o fim, a torcer pelo sucesso e temer seus desafios. Me sinto honrado de ter sido convidado a ler seu relato. Sua coragem e empenho são admiráveis. Me deu razões para pensar, nos meus próprios. Em questionar meus objetivos. Obrigado! Fico sempre feliz em conhecer mais um pouco sobre você. Parabéns ao seu time, que exemplo de equipe e perseverança.

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