“Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer.” (trecho do livro Cem dias entre céu e mar, Amyr Klink).
O planejamento para nadar no Rio São Francisco começou em março/2019. Bruno Ribeiro, meu treinador, havia comentado sobre a prova e me enviou via wsapp um link sobre essa travessia. De imediato mostrei interesse em me aventurar a nadar no Velho Chico. Sinto uma certa euforia com esse tipo de mensagem, e até mesmo um orgulho em mim mesma. Aventura, desafio e algo bem fora do cotidiano, sempre tem alguém lembrando de mim. A ousadia está me levando a lugares até então inatingíveis.
Pedi ao Bruno o contato do Marcos Pinheiro, do Travessias Pelo Mundo, e organizador da prova. Parecia que ele estava sentindo a minha vibe. Me informou sobre os valores e para finalizar me manda a seguinte mensagem: “Nenhum lugar que tu nadou até agora é parecido com o Velho Chico”. Pronto. Não precisava falar mais nada. No dia 31/03, estava eu garantindo a minha vaga. A partir daí, seriam 5 meses de preparação.
Um prazo excelente pra quem já tem ritmo e cabeça para treinos e provas longas. Mas, nada é tão simples. E no meu caso, não foi. Justamente na primeira semana de abril uma nova tempestade, a primeira tinha sido em janeiro, no trabalho, me trouxe a uma longa jornada onde os treinos e a vida profissional nem sempre andaram juntos.
Os treinos aos sábados no mar, como gostamos de dizer, o longão, começou a ficar difícil de acontecer, o que justamente abalou e muito o meu psicológico e autoestima para completar os 12km da travessia. E eu ainda tinha uma outra prova no meio caminho, e que não tinha nada a ver com a natação: a Meia Maratona do Rio de Janeiro.
A agenda de treinos estava lotada: segunda, quarta e sexta, era o dia de nadar. Terças, treino funcional com o Carlos Martins. Quintas, yoga. Os sábados e domingos eu deveria alternar os treinos longos, tanto da corrida quanto da natação. Mas, por motivos profissionais já citados, sábado era dia de trabalho e somente me restava o domingo.
Até a Meia do Rio, ficou decidido que no domingo seriam os treinos de corrida e a natação seria sacrificada até a data da prova, no dia 19/06. Não foi fácil lidar com essa agenda. O estresse estava em nível máximo. O cansaço já batendo na porta e o tempo que sobrava me dedicava ao sono. Dormir é descanso. E descanso também é treino. Descobri o quanto sou forte. Sem lesão e tentando seguir fielmente a rotina, fiz essas duas provas sem qualquer desgaste físico fora do normal.
Após a Meia Maratona, o foco seria a natação e o longo do fim de semana no mar precisava estar de volta. Por mais que estivesse treinando na piscina, senti o retorno ao mar. Me percebi lenta e sem ritmo em águas abertas. Era a natação? Era a rotina de treinos? Eram as horas de trabalho puxadas? Na verdade, era a junção de tudo. A um mês da travessia e eu estava mesmo desmotivada. O que piorou ainda mais quando no último treino longo, 2 semanas antes do grande dia, o Bruno marcou um longão de 3 horas no mar. O percurso seria: Itaipu – Piratininga – Itaipu. Tinha sido a pior semana de trabalho para mim, o cansaço mental estava batendo nível recorde. Eu não estava conseguindo render na piscina e ainda tinha que acordar às 5:30 da manhã do domingo do dia dos pais para treinar. Saí de casa com 2 copos de café e cantando uma música no rádio para dar uma euforia momentânea. Conversei comigo em voz baixa: você está aqui porque quer. Porque te faz bem.
Saímos de Itaipu na hora combinada. Eu, Diana, Marlus, Viviane e Bruno, que nos conduzia e carregava os nossos suprimentos no caiaque. A previsão era de entrada de vento, embora às 7h da manhã não havia nenhum indício que o tempo pudesse mudar tão rapidamente. Foi um dia para acabar com a minha autoestima. O vento entrou, o mar mudou, e já não bastava o desgaste mental, agora eu tinha o físico.
Aquele dia me fez refletir sobre o buraco em que me encontrava. O que precisava fazer até o dia 24? Dormir e pegar um pouco mais leve na carga de trabalho. Não havia mais ajustes a serem feitos, a não ser esse.
No dia 22/08 saí do Rio de janeiro com destino a Aracaju. No aeroporto, já em Aracaju, conheci uma parte dos nadadores. Todos seguimos no mesmo ônibus com destino a Piranhas, cidade histórica e longe, a oeste de Alagoas. Deu tempo da gente se apresentar e do Marcos também. Alguns ali já o conhecem de outras travessias. Mas, comigo, estava sendo a primeira vez.
Demoramos 5 horas até chegar lá. Eu aproveitei para dormir. Já estava aqui. Já deu certo. Foi o que pensei. E relaxei. Chegamos bem tarde em Piranhas, por volta das 00:30. Dormi no avião, dormi no ônibus e ainda tinha algumas horas na cama. A minha fama de dorminhoca está crescendo…


A sexta-feira, que antecedia a prova, foi dia de conhecer um pouco da cidade e, claro, nos ambientar com o rio. Saímos cedo da pousada e fomos até o ponto de passeio de catamarã pelo Cânion do Xingó. Que paisagem, que visual. Após a primeira euforia onde muitas câmeras, fotos, selfies e falatório dominavam e até mesmo iam contra todo aquele silêncio do lugar, fomos nos conectando com aquela imensidão de água verde com os paredões rochosos. Eu olhava para frente e pensava na profundidade, no vento, na paz que aquilo me passava. Sou privilegiada de fazer parte de um grupo que iria além e que nadaria no Velho Chico.


O catamarã parou no ponto de atracação. Turistas “comuns” têm acesso a uma parte do rio demarcada, como uma piscina natural. Nós, turistas-nadadores ou nadadores-turistas, tivemos a liberação para nadar um pequeno trecho, em torno de 2km, ida e volta. O suficiente para conhecer a densidade, temperatura e até mesmo testar o psicológico. Embora a água seja limpa e clara, com a profundidade, não se vê nada! Eu achei uma delícia esse contato e me surpreendi por não ter sentido nenhum estranhamento.




De volta do catamarã, era hora de curtirmos o que tem de muito bom no nordeste do Brasil: a comida! Buffet maravilhoso e preço bem justo. Se comparado aos custos de se comer em regiões do eixo RJ-SP, é barato.

Já no centro histórico e próximo à pousada que ficamos, seguimos em direção às escadarias que davam acesso ao Mirante Secular. Segundo o funcionário da pousada, são 365 degraus para chegar no mirante. Não contei, mas é bastante degrau e precisa de joelho para chegar e sair de lá.


Além do exuberante entardecer, de cima ficamos analisando o Rio São Francisco e tentando entender aquela movimentação da corrente. Questões essas que foram explicadas algumas horas depois no congresso técnico da organização.

E então chegou o grande dia. Às 5:30 da manhã o alarme disparou. Já havia organizado a minha bolsa térmica com os suprimentos: exceed em pó + água, exceed em gel + água, água somente e bananada. Começa aquela preparação lenta:
1 – Avisar ao relógio biológico que tem que ir ao banheiro mais cedo do que de costume. Não é uma tarefa tão fácil, mas até que atendeu o meu chamado!
2 – Aquele café da manhã de respeito: batata doce, mandioca e bolo de aipim.
A largada seria às 8h. Mas, tínhamos que chegar 1 hora antes para, agora sim, conhecer os nossos barqueiros. Me lembrei daquele programa do Silvio Santos, namoro ou amizade. De um lado da mureta, estávamos nós, os nadadores. Do outro lado, os barqueiros. E aquela sincronia curiosa. Pelo microfone o Marcos chamava o nome do nadador e o nome do barqueiro. Ambos iam de encontro na frente do pórtico. Achei divertido esse momento, confesso.
“Joana Teixeira Jahara. Barqueiro: José Luís, o Zé da Fofinha”. E lá fui eu toda sorridente encontrar o cara que definiria a minha rota no Velho Chico.



Tive uma ótima travessia ao lado do Zé. Eu o avisei: me joga na corrente e mantenha sempre do meu lado direito, que é o da minha respiração. Não vou nem olhar para frente para poupar o meu pescoço.
O Zé trabalhou bonito. Analisava a corrente, me direcionava para ela, remava, e ainda me ajudava na entrega dos suprimentos. Passei as minhas 2h58min praticamente focada em nadar: braçada, respiração, olhar o zé, hidratação, e um dos poucos momentos em que me distraí foi imaginando o que ele achava de nós, nadadores, com aquelas garrafinhas numeradas. “Zé, me passa essa garrafa que parece água suja”. Ele riu e perguntou: “É a água suja que funciona”?

Nadar no Rio São Francisco é uma experiência difícil de explicar. A força da água me faz ter certeza que nós, meros mortais, humaninhos, somos nada diante do poder da natureza. Atravessei esse rio a uma velocidade de atleta profissional: 1min25s/100m. E isso se dá apenas por um motivo: a corrente. Eu não nadei no Rio São Francisco, mas sim surfei.


Claro que contar assim parece uma moleza. Mas, não é. Senti as famosas panelas d’água e meu corpo em alguns momentos perdia a direção, igual a um boneco sendo lançado por uma criança. Confesso que ria dessa percepção enquanto nadava. Tive medo de cair no remanso, entre o 4km e 5km, trecho que foi sinalizado no congresso técnico. Caiu ali, vai perder um tempo para sair. Não tem corrente. Depois, conversando com o Marcos, ele me explicou que o remanso é a parte mais temida (crença do povoado) do baixo Rio São Francisco porque quando acontecia alguma morte, era ali onde paravam os corpos. Melhor pular essa informação adicional.
Como já era previsto, a partir do 8km houve entrada de vento. Eu senti mesmo e forte na minha última parada para hidratar, 9,5km. A corrente era a favor. O vento contra. Eu bebi um bocado de água nessa hora e me lembrei do meu último treino longo, aquele de Itaipu-Piratininga-Itaipu, quando a entrada do vento mudou radicalmente o mar. A cabeça estava ótima. Não me afobei. O Zé teve que fazer um esforço para ficar do meu lado. Se ele achou que fosse ser fácil me acompanhar, dei trabalho! Cheguei inteira, sem desgastes maiores e muito, muito feliz por ter concretizado mais um projeto.

Um pouco diferente dos meus relatos de viagem, mas afinal tinha que ser. Eu vivi o Velho Chico. Foram 4 dias de forma intensa em um grupo tão heterogêneo, mas que se uniu e se encaixou tão lindamente. A felicidade estampada no rosto de cada um na chegada, os muitos abraços e claro, aquelas lágrimas que escorreram quando todos do grupo BFswim nos reencontramos à margem do rio, na cidade de Entremontes, após os 12km.

O esporte é a melhor forma de socialização, sem dúvida. São tantas histórias, tantas trocas e um único objetivo. Agradeço ao Marcos Pinheiro por ser um visionário: 5ª edição da Travessia Volante Lampião – O Sertão vai virar Mar.
Equipe BFswim: Ana, Bruno, Cristina, Diana, Joana, Juliana, Mara, Marlus, Viviane e Otília (a maior incentivadora das aventuras do Marlus).

Joana querida, genuína garota que traduz as emoções das aventuras que entra. Foi realmente uma trip fantástica. Nadar naquele ambiente desconhecido e repleto de estórias e “causos” foi mesmo um ato de humildade, respeito e autoconhecimento. A convivência com nosso grupo BF foi fantástica e ainda tivemos a chance de encontrar muitos colegas de todo Brasil.
A conexão de confiança com nossos guias “barqueiros” foi algo ímpar – entregamos nossas vidas a eles e aos nossos bracos. Fica aí minha homenagem a esses rapazes e homens ribeirinhos. E um forte abraço ao Marcos e Léia que poeticamente e eficientemente conduziram para que essa viagem fosse o que foi, MÁGICA. Bj.
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Cris, querida amiga do mar e agora também do rio, o que nós vivemos ainda será e muito contado. Lembrança linda desses dias. Aquela cidade nos abraçou, assim como nós a abraçamos! Que venham as próximas aventuras…
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Joana, ótimo relato, gostei muito!!!
Parabéns e que venham as próximas aventuras! Beijos Laura
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Obrigada Laura! Foi um prazer em conhecê-la! Que venham as próximas!!! 🙌
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Parabéns Joana! Ótimo artigo, bela partilha. Felicidades
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Obrigada Sílvia!!!! 😘
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Primeira viagem de Portugal ao Brasil, conhecendo vários lugares… E com o teu artigo fiquei a conhecer mais um bocadinho. 😘
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Que bom que estou incentivando você a conhecer mais lugares do Brasil!
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Orgulho dessa minha irmã! Empresária, atleta, focada, dedicada! Te desejo tudo de bom!! 😘
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Que linda mensagem! Ameeeeeeeiiii!!!!♥️
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Joana minha querida,
Excelente o seu relato, com detalhes, com fotos, com emoção. Não sou da água, como bem sabes, mas desafios são também fonte de inspiração para mim!
Parabéns por mais essa conquista!
Beijos
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Obrigada Alê!!! Você não é das águas, mas vive se aventurando por umas montanhas por aí! A ideia é essa, compartilhar. Não é pouco conciliar a rotina de treinos, e você sabe bem disso!
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