Um dia antes de começar a travessia do Vale do Pati, cheguei à cidade de Lençóis. Que é bonitinha e bem turística por ser base que leva aos cartões postais da Chapada. De avião eu fiz Rio – Salvador; e de ônibus, leito e confortável, pela empresa Real Expresso, Salvador – Lençóis. Recomendo viajar pela noite. Eu fiz durante o dia e a paisagem não é imperdível da janela do ônibus e há aqueles azares de viajantes, como aconteceu comigo, de duas mulheres no banco da frente conversarem altamente durante toda a viagem.
A chegada na cidade foi por volta das 19h30. Uma passada rápida na Hospedaria Tayrona e depois na agência Chapada Adventure . Depois disso, o jeito era comer e dormir, porque a saída seria às 8h e ainda tínhamos um longo percurso de 75km de carro até a cidade que seria o ponto de partida do grupo: Guiné.
1º dia – Saímos no horário previsto. Éramos 5 mochileiros + o guia e o motorista. A Estrada é um pouco complicada. Muito caminhão no percurso, sem contar buracos também no meio do caminho. Quando chegamos em Guiné, aproveitamos para comprar as últimas coisas antes do nosso ponto de partida. Se não fosse ali, não teria mais opção.
De Guiné até o início da caminhada eram mais 15 minutos de carro. Na correria da última hora, descobri que não precisava ter levado toalha, porque na casa dos moradores eles disponibilizam. O que pudesse eu estava deixando para trás. Muito preocupada com o peso na mochila. E começamos…
O primeiro dia sempre é de muita cautela. Ninguém sabia como era o ritmo de cada um. Era o primeiro momento de muitos que estaríamos juntos. Depois de uma longa subida, tivemos trechos bem planos e de sol na cabeça. O calor estava dando o ar da graça.

Parada estratégica e aquela sombra adequada para almoçar próximo a um rio. Só não contava com a mutuca, que bicho grande ! O nosso guia, Hare, dizia que a picada doía e muito. O jeito era ficar dentro d’água e evitar logo de cara algum tipo de alergia a esse bicho estranho. Ficar no rio sem ver o fundo ou na beira dele e encarar a picada da mutuca? Dúvida cruel!
Logo ali próximo à base do nosso almoço, estava a Coral (falsificada) garantindo também o seu (comendo um sapinho). Por mais que eu adore trilha, tenho pavor de cobra e não estávamos nem na metade do nosso dia e já tinha visto uma. Bateu aquela ansiedade…do que viria mais pela frente!

Após a pausa, seguimos com a caminhada, terreno plano e tudo até então muito tranquilo. E eis que vemos aquele visual dos deuses, se é que eles existem! Dali já sabíamos…que iríamos percorrer todo o vale durante aqueles dias. Incrível, né?

Claro que o Hare deixou algumas surpresas para a hora. Afinal, ele mesmo dizia que não valia a pena contar sobre o percurso, para não gerar ansiedade. Mas, se a gente estava naquele alto e iria cruzar todo o Vale ao longo de 5 dias, como faríamos isso? Conhece a expressão descer uma pirambeira? Então foi justamente isso que fizemos, e com a mochila nas costas!

Após um dia caminhando 14 km, chegamos à nossa primeira acomodação por volta das 17h, a casa da Dona Raquel. Confesso que fiquei surpresa com o lugar. É simples, mas muito arrumadinho. Cama e banheiro bem limpos. Segundo o Hare, são 10 famílias que vivem dentro do Vale e todas sobrevivem do turismo. Explicada a recepção! Do banho para a janta (que por sinal, comida maravilhosa) e depois para a cama.
2 º dia – Não se começa um dia sem um café da manhã bem reforçado. Nesse dia não precisávamos carregar toda as nossas coisas. Iríamos dormir novamente na casa da Dona Raquel, então só levamos o necessário para o dia: água, alimentos, protetor e lanterna. Até o Cachoeirão, seriam 18km ao todo (9km de ida e 9km de volta). Como eu estava feliz em não ter que carregar todo o peso!
Acho que a comida da Dona Raquel nos favoreceu. Estávamos num ritmo bom! E a chegada foi triunfal! Que paisagem, que lugar! Bem que o Hare falou: cada dia a paisagem vai ficando ainda melhor!

Só lamentamos não ver a queda d’água do lugar, como o próprio nome já diz. Estávamos no período de seca.

Dali, o Hare nos deu a opção de já conhecermos a Cachoeira dos Funis, já que ainda era cedo, por volta das 13h, e ainda nos facilitaria porque deixaríamos a subida do Morro do Castelo, no 3º dia, livre de tempo.
Digamos que foi uma caminhada dolorida! Andamos muito e o sol quente na cabeça e o pouco vento jogou o nosso rendimento pra baixo. Onde tinha rio parávamos para encher o cantil, molhar o rosto, a nuca e até mesmo as camisas.
Considerei essa trilha um desafio e tanto. Passamos por 3 cachoeiras, uma trilha com muitas pedras e descidas, além de ter que passar no percurso onde as abelhas africanas habitavam. Silêncio absoluto! Quanto mais difícil se tornava o acesso, maior a expectativa. No final, a recompensa: uma belíssima cachoeira e a sua piscina natural. Um convite irrecusável não entrar!

Saímos dos Funis por volta das 17h. Sem força mais na perna, ainda tínhamos 1 hora de caminhada até a casa da Dona Raquel. E o jeito era acelerar, para não pegar o percurso no escuro. Ao final desse dia, vimos a rota, em torno de 24km. Hora do relaxante muscular!
3º dia – Acordei com todas as dores musculares. Os dois dorflex da noite anterior pareciam que de nada adiantou. Além disso, uma noite de sono agitada onde muitos momentos acordava para beber água. O sol na cabeça durante todo o dia anterior estava cobrando.
Da casa da Dona Raquel fomos em direção à casa da Dona Léa, onde deixaríamos a nossa bagagem principal e levaríamos somente o necessário para subir o Morro do Castelo. Comparado ao dia anterior, hoje seria “mais tranquilo” na extensão: 3km de subida/3km de descida.
Tranquilo somente na extensão, já na altura… E quanto mais eu olhava para a cima, mas eu me convencia que não tinha como subir. A trilha é linda. Mata um pouco fechada, período da quaresma e com muitas flores da estação, pedras, e é claro que isso exigia cada membro do corpo a ser trabalhado. Só de ter que passar por dentro de uma caverna, na intenção de subirmos pela outra direção do Morro, não era para qualquer um. Difícil narrar o que se vê e o que se vive.
Para fechar esse lindo dia de muitos desafios e lutando contra os medos individuais, recebemos algo do céu! A via láctea ali pra gente ver e pensar o quão pequeno somos nós!

4º dia – Considerado o dia mais light. Trilha fácil e um percurso de aproximadamente 8 km. Saímos da Dona Léa e fomos até a prefeitura do Vale (que nada mais é que uma casa). Dali constatamos do porquê o Morro do Castelo ser assim chamado!

Uns 20 minutos de pausa e admiração pela paisagem foi o tempo suficiente para a mula roubar os nossos pães do almoço! Não tinha como não rir! Os burros fomos nós!
De lá seguimos em torno de 1h de caminhada até a cachoeira. Era o nosso dia de spa. Banho de cachoeira, argila na pele, dormida na pedra. Foi ali que eu me dei conta: o mundo pode estar desabando em tragédias, e nós ali sem informação, sem celular, só curtindo a natureza há 4 dias. Chega a ser impossível imaginar a falta de comunicação nos dias atuais.

No fim da tarde, era hora de caminhar novamente. Estávamos há 1 hora da casa da Dona Linda. Doído foi fazer o corpo engrenar depois de algumas horas relaxando. O despertar veio ao encontrarmos um filhote de jararaca no nosso caminho. Eu só conseguia pensar: se o filhote está aqui, por onde se encontra a mãe? Que pavor!!!!
Tirando esse porém, chegamos na casa da Dona Linda bem rápido. A casa, a mais simples de todas; a comida, a de melhor tempero! Dormi ao canto do grilos e com luz de velas. Há tempos não tinha uma noite romântica assim!

5º dia – O último dia, porém o não menos importante. Acordamos às 4h30, nos preparamos, tomamos café e saímos assim que o sol levantou. Segundo o Hare, seria uma manhã de muito calor e se passássemos da forte subida ainda no fresco, o resto da caminhada não seria tão desgastante. Dito e feito!
Era uma subida e tanto, porém era o caminho “asfaltado” do Vale. Muitas pedras ali foram colocadas pelo homem, muito antigamente, para escoar o café para a cidade. Ali, num determinado ponto, víamos a ponta do que assistimos no segundo dia, o Cachoeirão. E a noção de quanto caminhamos durante esses dias.

Depois desse último lindo visual, não havia mais colírios para os nossos olhos. Trilha chata, um solo que dificultava a pisada, um calor absurdo (e isso porque eram 9h da manhã). O cansaço e a expectativa na chegada a Andaraí, a cidade final.
Eis que o Hare informa que estávamos no ponto de sinal do celular. Foi hilário! Enquanto ele avisava para a agência a nossa previsão de chegada, que era por volta das 11h30, nós avisávamos que estávamos vivos. Gostaria de ver a cara da minha mãe no momento em que ela viu meu whasapp.
A chegada a Andaraí seria na forma de brinde. Um brinde de sorvete! Que felicidade a sensação de termos feito a travessia completa, ao todo calculamos em torno de 75km. Sem incidentes e com um grupo que foi ficando cada vez mais unido ao longo dos dias. Para fecharmos com chave de ouro, de Andaraí fomos fazer snorkel no poço azul. Um trajeto chato de carro. Chegando mais cedo, fora de temporada, esperávamos um local sem muita gente.
Não estava com filas ou coisa assim, mas depois de 5 dias na natureza mais selvagem, foi de estranhar estar ali mergulhando com muitas outras pessoas. Ainda tinha que me acostumar com a volta à civilização!

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Dica de quem já foi: Vale do Pati
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